Quando uma garota se assume lésbica, está indo contra tudo o que o patriarcado prega. Significa que ela é capaz de amar e de se dedicar a uma pessoa igualmente oprimida, ao invés de criar uma rivalidade desnecessária. Significa que não será a esposa submissa ao seu marido. Exatamente por desafiar o machismo, vai sofrer a vida inteira.

Bem, comigo é assim.

Aos 9 anos de idade, eu ouvia os meninos da escola me chamarem de “sapatão” e sequer sabia a definição do termo. Meus colegas reparavam no meu comportamento e faziam piadinhas. Eu sofria, sentia culpa. Com o tempo, a impressão de ser uma pessoa “errada” só aumentou.

Passado o primeiro momento de superação, pude encarar o que estava à minha frente. Os desafios e situações que teria que lidar. Tentei imaginar meu futuro. Vi que precisaria me impor e assim o fiz.

Converti a repulsa em orgulho. Ergui minha voz, gritei aos quatro ventos. Aos 16, contei à minha mãe. “Você é minha filha e eu vou lhe amar de qualquer jeito, mas precisa estar pronta porque não será aceita pela sociedade”, ela disse, coberta de razão. Anos depois, falei com meu pai. Ainda na defensiva, esperando uma rejeição. Para minha surpresa, ele foi muito compreensivo e protetor. Tenho orgulho da minha família. Reconheço minha sorte por isso. Ainda assim, é sempre bom lembrar que ser respeitada dentro de casa não me livra de enfrentar problemas fora dela. Convivo com julgamentos, por vários motivos.

Aparência

Quando meu cabelo era curto, raspado em uma das laterais, e eu usava roupas mais folgadas, constantemente era confundida com um menino. Os olhares tortos eram mais frequentes, assim como as críticas.

“Sente como uma mocinha. Ande direito.”

“Tudo bem ser lésbica, mas precisa se vestir como homem?”, como se eu fosse obrigada a ser feminina, só por ser mulher.

No momento em que deixei meu cabelo crescer, comecei a usar maquiagem e peças que mostravam mais o meu corpo, minha homossexualidade passou a ser questionada. Ah, vale lembrar que mudei por vontade própria, não por pressão da sociedade ou algo do tipo.

julho de 2014
abril de 2016

“Você é bonita demais para ser lésbica, que desperdício!”

“Você está muito diferente, voltou a ser mulher?”, como se aparência definisse gênero e orientação, ou como se lésbicas não fossem mulheres.

Hoje em dia (2017), vario o meu visual, trafegando livremente entre o que é considerado “masculino” ou “feminino”. O fato de eu ser andrógina não me torna menos mulher.

Vida sexual

A indústria pornográfica promove a falsa noção de que mulheres precisam de um homem na relação para obter prazer pleno. Em decorrência disso, somos fetichizadas o tempo todo. Perdi a conta das vezes em que eu estava beijando em público e algum cara se aproximou, perguntando se podia participar, ou “ao menos” observar.

“Como é que vocês transam? Não sentem falta de algo?”, como se sexo se resumisse a penetração, ou como se o pênis fosse o centro do universo e devesse estar presente em todo e qualquer momento de intimidade.

“Você só não encontrou um cara que soubesse fazer direito”, e é por essas e outras que o discurso do estupro corretivo tem se tornado tão popular.

Situações como essas só demonstram o quanto sofremos com a invisibilidade. Existimos, mas não somos vistas. Ninguém se importa com nossas pautas. Toda a dor que carrego não é por ser lésbica, mas sim por ser incompreendida, silenciada, odiada e ameaçada.

Finalmente, depois que passei a estudar e a me envolver com o feminismo, me senti mais forte. Saber que há outras mulheres passando pelas mesmas experiências que eu é triste — mas, ao mesmo tempo, inspirador. Compartilhar vivências com quem nos entende é uma forma de fortalecimento e resistência. Nós nos unimos, nos protegemos e seguimos mais confiantes, prontas para devolver os tapas que levamos ao longo da vida.

Lesbianidade não é somente sobre amor entre mulheres. É um posicionamento político (extremamente revolucionário, diga-se de passagem).