Mulheres e o movimento radical
Mulheres e o movimento radical

No último ano, muitos grupos de mulheres radicais surgiram em todo o país. Isso foi causado pelo fato de as mulheres do movimento perceberem que desempenhavam papéis secundários em todos os níveis… seja em termos de liderança ou simplesmente em termos de serem ouvidas. Elas se viram (e às outras) com medo de se manifestar por duvidarem de si mesmas quando estavam na presença de homens. Seus papéis acabavam se concentrando na produção de alimentos, digitação, mimeografia, trabalho de assistência geral e como suprimento sexual para seus camaradas depois do trabalho.

Quando esses problemas começaram a ser discutidos, ficou claro que o que havia sido inicialmente endereçado como um problema pessoal era, na verdade, social e político. Encontramos fortes paralelos entre a libertação das mulheres e a luta pelo poder negro, sendo oprimidos por uma dinâmica psicológica/econômica semelhante. E quanto mais analisamos o problema e percebemos que todas as mulheres sofrem com esse tipo de opressão, mais percebemos que não era só um problema isolado do movimento de mulheres.

Tornou-se necessário ir à raiz do problema em vez de nos envolvermos na solução de problemas secundários decorrentes dessa condição. Assim, em vez de invadir o Pentágono enquanto mulheres, ou protestar contra a Convenção Democrática como mulheres, devemos começar a expor e eliminar as causas de nossa opressão como mulheres. Nosso trabalho não é apenas melhorar as condições do movimento, mas também melhorar as condições profissionais da mulher trabalhadora. São ambos reformistas se considerados como fins em si mesmos; e ignoram o conceito mais amplo de que não se pode alcançar a equidade para membros oprimidos de um grupo enquanto os demais não forem livres.

Ao escolher lutar pela libertação das mulheres, também não é suficiente explicá-la apenas em termos gerais do “sistema”. Pois o sistema oprime muitos grupos de várias maneiras. As mulheres precisam aprender que os métodos específicos usados ​​para mantê-las oprimidas são convencê-las de que elas são sempre secundárias ao homem e que as suas vidas são definidas nos termos dele. Não podemos falar em nos libertar até que nos libertemos desse mito e nos aceitemos como primárias.

Em nosso papel de mulheres radicais, somos confrontadas com o problema de garantir uma revolução feminina dentro da revolução geral. E devemos começar a distinguir a liberdade real da liberdade aparente.

Homens radicais podem reivindicar certas liberdades para as mulheres quando elas se coadunam aos seus próprios interesses, mas essas não são verdadeiras liberdades, a menos que surjam do conceito de equidade entre homens e mulheres e enfrentem a questão da supremacia masculina.

Por exemplo, os homens podem querer que as mulheres lutem na revolução porque precisam de todas as pessoas capazes que conseguirem. E eles podem precisar que as mulheres se juntem à força de trabalho sob um sistema econômico socialista porque não podem permitir, como o capitalismo, ter uma força de trabalho desempregada (excedente) que não contribua para o trabalho, sendo apoiada pelo Estado. E os homens podem, portanto, defender as creches públicas, para que as mães não sejam impedidas de trabalhar.

Mas o conceito fundamental de mulher mudou? Essas mudanças significam que os homens renunciaram à antiga relação de supremacia, na qual as mulheres sempre devem ser definidas em termos do seu homem? O domínio básico mudou? É importante analisar a história das revoluções em termos de grupos de interesses especiais. A Revolução Americana foi uma revolução burguesa branca masculina. A questão era conseguir lucrar livremente sem a interferência da Inglaterra: a Declaração de Independência foi escrita especificamente para justificar a independência da Inglaterra. Era um documento que não garantia direitos aos negros ou às mulheres. Crispus Attucks, um dos primeiros homens negros a perder a vida pela revolução, estava lutando em uma revolução vicária — a revolução branca. Betsy Ross, costurando a bandeira, participou indiretamente de uma revolução masculina. Os direitos conquistados não eram para ela.

Sempre é verdade para um grupo oprimido que o mero fato de sua existência significa que, em certa medida, eles aceitaram seu status inferior-colonial-secundário. Ensinados o auto-ódio, eles se identificam com o opressor. Assim, fenômenos como negros branqueando a pele e alisando os cabelos, e mulheres respondendo horrorizadas à ideia de uma mulher presidente.

A revolução econômica — ou seja, a mudança do capitalismo para o socialismo — também pode ser vista em termos de interesse masculino. Sob o capitalismo, a maioria dos homens era explorado e controlado por alguns homens que possuíam a riqueza e o poder sobre suas vidas. Ao mudar a estrutura econômica para o socialismo, essa exploração econômica específica foi erradicada.

As mulheres na União Soviética lutaram e apoiaram a revolução. Mas seja por genuína esperança de que a não-dominação e a não-exploração fossem aplicadas liberalmente a elas, ou pior, devido à falta de uma consciência mínima de que elas próprios eram importantes, a revolução soviética continuou sendo uma revolução do poder masculino, embora muitos novos benefícios tenham vindo para as mulheres. A União Soviética ainda é governada principalmente por homens; a integração das mulheres na força de trabalho significava simplesmente que ela transferia seu relacionamento auxiliar de serviço com os homens para a área laboral. As mulheres soviéticas são professoras, médicas, assistentes, lidam com alimentos. E quando voltam do trabalho, espera-se que continuem com o papel de submissão aos homens e façam as tarefas domésticas, cozinhando e assumindo a responsabilidade primária pela educação dos filhos.

É importante que as mulheres radicais aprendam com esses eventos. A relação dominador/submissa entre homens e mulheres não foi contestada. Não foi confrontado. Em vez disso, fomos solicitadas, por eles, a equiparar a nossa libertação à deles… a culpar nossas condições inferiores na estrutura econômica em vez de confrontar o óbvio interesse masculino em manter as mulheres “em seu lugar”. Nunca insistimos em um programa tão explícito de libertação de mulheres como os homens exigiram para se libertar da exploração econômica.

Nunca confrontamos homens e exigimos que, a menos que desistam de seu domínio sobre nós, não lutaríamos por sua revolução, trabalharíamos em sua revolução. Nunca lutamos contra a causa principal, esperando que a mudança das características secundárias nos trouxesse liberdade. E terminamos com uma revolução que simplesmente transferiu a supremacia masculina, o paternalismo e o poder masculino para a nova economia. Uma revolução reformista que apenas melhorou nossos privilégios, mas não mudou a estrutura básica que causava nossa opressão.

Um revolucionário negro hoje não ficaria satisfeito sabendo apenas que a estrutura econômica passou do controle privado para o controle coletivo; ele ia querer saber sobre o racismo. E você teria que mostrar a ele como o poder branco e a supremacia seriam eliminados nessa revolução antes dele se juntar a você.

Até que façamos demandas semelhantes, a revolução nos passará ao lado.


Anne Koedt foi a autora desse discurso e proferiu-o em uma reunião regional de grupos de mulheres radicais na Universidade Livre, na cidade de Nova York, em 17 de fevereiro de 1968. O discurso foi publicado em Notes From the First Year, uma compilação de discursos feministas radicais e escritos impressos pela Radical Women de Nova York em junho de 1968 e posteriormente arquivados pela Redstockings.


Traduzido do site Marxists.org por Aline Rossi | Feminismo Com Classe

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