Quando confrontados ou expostos, os homens apresentam em três padrões de reação:

  1. A completa negação. Este é o homem que não enxerga ou não aceita que fez caca. A negação é geralmente acompanhada por “era em outro contexto” ou, principalmente, “foi só uma brincadeira, não é pra tanto”. Ou seja, ele ou não acha que houve caca ou não se julga responsável por ela.
  2. A divisão de responsabilidades. Este é o homem que admite que fez caca, mas em reação a uma suposta caca anterior feita pela mulher. Assim, este homem busca eufemizar sua responsabilidade e minimizar a gravidade da caca — o que deixa bem claro que, não, ele não se acha responsável pela caca feita em primeiro lugar.
  3. A criação machista. Este é famoso entre os desconstruídos, esquerdomachos de flores na barba. O homem faz sua parcela de mea culpa, admite que pisou na bola; mas dá um jeito de inserir sua criação em uma sociedade machista pra tentar trazer pra si o benefício da dúvida — pô, o cara foi criado pra fazer caca, né? Ele tira de si a responsabilidade de forma tão completamente descarada que só não nos faz vomitar porque pode passar batido; afinal, é tanto pedido de desculpa e afirmação de que ele “aprendeu” e “cresceu espiritualmente” e outras verborragias do tipo que fica difícil manter a atenção.

Você, leitora, já deve ter entendido que a intenção deste texto é descrever (e destruir, desmascarar, jogar na parede e ver escorrer) a Reação Número Três.

O perigo dessa reação é que ela parte de uma premissa verdadeira: sim, brother, nossa sociedade é machista e tu provavelmente teve uma criação machista (não vale botar a culpa na mãe, hein?!). Da mesma forma como todas e todos nós crescemos em uma sociedade racista, capacitista, capitalista, individualista, etc. etc. etc…. Mas isso não nos dá titularidade para sairmos falando e fazendo caca por aí, porque — saca só essa ideia batuta, mano, tu vai pirar — somos seres pensantes.

Somos seres pensantes e somos capazes de observar e de raciocinar antes de imitar. Somos capazes de refletir sobre nossas próprias ações. Temos consciência de quem somos, do que fazemos, de como o que fazemos afeta as outras pessoas — ou nem tanto (mas, pelo menos em teoria, sim).

Mais do que isso, eu e você temos a capacidade de aprender. Se o orgulho permitir, podemos ouvir, dialogar, debater, questionar, perguntar, ouvir de novo, refletir de novo.

Mais do que nossa criação (ou, em outras palavras, aquilo que nos foi transmitido, ou aquilo que fizeram de nós), nossa identidade é composta por nossas escolhas: o que escolhemos fazer com nossa criação. O que escolhemos fazer com o que fizeram de nós.

Tu, por exemplo. Tu, branquelão de classe média ou classe média alta. Fizeram de ti um baita de um machista. Talvez você tenha ouvido que lugar de mulher é dentro de casa lavando roupa. Talvez você tenha visto teu pai bater na tua mãe. Talvez você tenha ido a um puteiro com 13 anos de idade pra ter tua iniciação sexual com prostitutas, porque mulher é pra isso, sexo é isso, é um direito, algo que se compra. Não só talvez, como provavelmente tudo isso.

Mas, né? Hoje tu já tá bem grandinho. E tu é bastante privilegiado: tu tem acesso a internet. Tu tá nessa plataforma que se chama facebook que tá pipocando de página nova de feminismo todo santo dia. Tu já teve bastantes amantes (não vou chamar de companheira porque tu não merece esse título). Tu deve ter feito escola particular até pelo menos o terceiro colegial. Tu tem dinheiro suficiente pra ir ao cinema, ir ao teatro, comprar uns livros, ir a umas palestras, fazer uns cursos, quiçá viajar pro exterior e entrar em contato com gente de fora.

Então, cara, sinto muito te informar — não adianta saber e admitir que tu teve uma criação machista porque isso muda nossa vida (e nossa sociedade) em exatamente zero peidos. (PLUS: Isso também não te torna menos escroto.)

male tears

Tu tem a obrigação de ser diferente do que te criaram.

Tu tem a obrigação porque tu com certeza tem contato com pessoas que tomaram consciência de si, de suas opressões, de suas correntes, de seu contexto, de seus privilégios, enfim — e conseguiram compreender o lugar que ocupam no mundo e o que isso significa.

Se isso não fosse possível — se o que somos, pensamos ou como agimos fosse 100% reflexo dos valores da sociedade em que vivemos — o feminismo não teria sido possível. O movimento operário não teria sido possível. A abolição da escravidão não teria sido possível. A despatologização da homossexualidade não teria sido possível.

Onde existe opressão, existe possibilidade de revolução, porque nós temos essa capacidade.

Nós somos potência.

Só que pra isso acontecer, e pra essa potência se concretizar, tu tem que querer. Né? E aí que reside o problema. Eu tenho a sensação de que tu não quer, não.

Porque é bem mais fácil botar a culpa nessa nossa sociedade tão horrível e misógina, não é mesmo? ¯\_(ツ)_/¯

E até a última vez em que verifiquei, a sociedade era composta por pessoas. Por mulheres e por homens — aí ó! tu entrou na história — ; e não por entidades transdimensionais ubíquas e incorpóreas. Eu faço parte da sociedade. Tu faz parte da sociedade. Então se tu continuar reproduzindo e fazendo caca, dá pra te responsabilizar pessoalmente, viu?

Sociedade, meus ovários.

Salve.

P.S. De resto, vai comprar um verniz pra lustrar essa tua cara de pau.

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