Não existe liberdade sexual em uma cultura do estupro.
Não existe liberdade sexual em uma cultura do estupro.

Acho que temos que ter uma conversa meio dura aqui. Eu sei que nos últimos anos você tem aprendido e entendido que é uma mulher livre sexualmente. Que é dona do seu corpo. Que pode fazer o que quiser com ele. Que não é mais reprimida. Que tem DIREITOS que foram conquistados inclusive a duras penas por outras mulheres, feministas, que denunciaram e lutaram para que você pudesse ter alguma autonomia.

Estas maravilhosas mulheres que nos antecederam denunciaram sobre como nosso corpo sempre foi objetificado e usado como mercadoria e sobre como nossa capacidade de gerar, em nossos úteros, uma nova vida, nos manteve subordinadas e exploradas. E lutaram portanto por direito a métodos contraceptivos e a interrupção de gestações se assim mulheres desejassem. Essas mulheres denunciaram que nosso corpo sempre foi passivo no ato sexual e que o prazer deveria ser algo compartilhado e desejado por todas as mulheres.

Então agora cá estamos nós, onde você grita por aí “meu corpo, minhas regras” e acredita piamente que é livre só porque pode “dar para quem quiser”, e pode mostrar o seu corpo da maneira que desejar e mandar nudes na internet. Volte duas casas, amiga. Há muitas outras coisas que estas mulheres que nos precederam também disseram e que você não prestou muita atenção. Uma delas era que vivemos em uma cultura do estupro e que toda relação heterossexual é pautada por hierarquia e dominação e que portanto não há liberdade sexual possível enquanto essa lógica não for subvertida.

Quando eu falo em estupro, você talvez pense no ato violento, forçado, coercitivo. E então talvez muitos homens respirem aliviados por sentirem-se fora dessa equação. No entanto se pensarmos nas fronteiras embaçadas de consentimento que nos são ensinadas, o número de homens que cometeu alguma violência sexual é infinitamente maior do que imaginamos. E certamente você sofreu muito mais violências do que se deu conta.

Quantos não roubam beijos, acariciam mulheres de maneira inconsentida? Quantos homens não fazem sexo com sua parceira sem estar realmente preocupado se ela está com vontade, ou mesmo se ela também está aproveitando a experiência? Que mulher nunca transou com o marido ou namorado sem estar com nenhuma vontade, por senso de “obrigação”? Pela ameaça velada de traição “se não transar com você vou ter que transar outra”? Ou porque o “não estou com vontade” foi solenemente ignorado e homens permaneceram insistindo tanto que ela acabou cedendo para ter sossego? A ponto de originar a clássica piada sobre a desculpa da “dor de cabeça” para não transar. Ou a de ficar “escolhendo a cor que vai pintar o teto” enquanto faz sexo. Isso não é engraçado. Isso é muito violento. Mulheres terem que inventar que estão doentes ou indispostas para que seus companheiros desistam de querer um sexo que ela não está com vontade de realizar é cruel demais. Um sexo que muitas vezes aquela mulher não quer fazer simplesmente porque é ruim. É um sexo onde ela não tem nenhum prazer, não é uma experiência que ela aproveite. Que ela finge ter um orgasmo para ver se aquilo acaba de uma vez e ela pode voltar pra ver novela. Um sexo que é visto como um mal necessário a alguma estabilidade e paz na união que ela está, que “não custa nada”.

“É rapidinho”, “depois você vai gostar”, “não custa nada”, eles dizem.

Vejam que perverso:

Homens aprenderam que sexo é para eles, é sobre eles. Que apenas eles têm prazer dessa experiência. Que seu corpo tem “necessidades”. Que é “instinto”. Que ele é um animal sexual cujas gônadas vão explodir se ele não transar. Que ele não pode se conter. Que eles devem conquistar e foder o maior número de mulheres possível porque é isso que prova que ele é macho e viril. Mulheres também aprenderam isso sobre os homens.

E mulheres aprenderam também que sexo é uma coisa “suja”, que boas mulheres sequer gostam de sexo, aprenderam que homens é que devem “fazer a mulher gozar”, como se apenas eles soubessem os segredos sobre o corpo de uma mulher. Mulheres aprenderam que não sentem desejo. Que são frígidas. Que gozar é difícil. Que não devem tocar-se. Que é normal o sexo ser ruim. Que devem fazer sexo com o menor número de homens possível, porque isso é prova que ela tem dignidade moral. E mulheres aprenderam que só são valorizadas se forem dignas. Se forem “direitas”, se forem “puras”. Porque o sexo macula.

O sexo é uma coisa mundana. E o homem é que é do “mundo”. Mulheres são do confinamento do lar, da domesticidade.

Homens aprenderam que mulheres valorosas não devem gostar de sexo. Ou melhor, mulheres podem até gostar depois que conhecerem “o homem certo”. Então homens tem a noção distorcida de que mulheres acham que não gostam de sexo e nunca querem sexo porque ainda ninguém lhes mostrou como sexo é bom. E que por isso recusam. Por isso O recusam. Então ele deve insistir, insistir, insistir, até ela ceder. Porque no final, ela vai gostar.

Mulheres aprenderam que não devem demonstrar que querem sexo, mesmo que queiram muito. Porque mulheres que cedem na primeira tentativa já sabem que sexo é bom. Portanto já tiveram sexo com outro homem. Já gostam. Não são mais “puras”, já não tem mais tanta moral e dignidade. Perderam o “valor”. Porque o “valor” de uma mulher está exatamente localizado entre suas pernas na nossa sociedade. Não à toa mulheres são, por séculos, coagidas e punidas por não manterem suas “virgindades”. Não à toa, até hoje, um hímen intacto faz fortuna em leilões.

Dessa forma, quanto mais rápido mulheres cedem, mais isso indica que elas tiveram muitos parceiros, porque talvez ela goste muito mesmo dessa coisa de sexo e vá transar com qualquer um. E mulheres não podem transar com quem quiserem, porque vai que ela engravida, como saber quem é o pai? Como garantir que o homem que está espalhando sua semente está criando um herdeiro que é seu?

Então mulheres aprenderam que devem sempre dizer não, numa tentativa de “valorizar-se” e que deve deixar o homem “conquistá-la”, que nada mais é do que tentar persuadi-la a ter sexo com ele, e quem sabe nesse meio tempo descobrir que ela é uma mulher digna o bastante para ele querer ter uma família com ela. Se a fórmula funcionar bem e ela conseguir sustentar esse jogo por tempo o suficiente, homens podem inclusive casar com ela no recurso último de finalmente transarem. E assim mulheres obtém o que elas aprenderam que é importante — e que não é sexo — mas “ter um lar e um marido”.

Portanto a boa mulher sempre nega sexo, o bom homem sempre insiste apesar do não. E vendemos a ideia de que homens devem “conquistar” a mulher e “amansar a fera”. Que mulheres são tolas e estúpidas e não sabem o que querem até um homem mostrar-lhe o que é bom.

Essa lógica tem um nome. É cultura do estupro.

E como isso opera, na prática? Antigamente, essa ideia desdobrava-se simplesmente com homens capturando mulheres e estuprando-as abertamente, para satisfazer seus “instintos primitivos”. Ou comprando-as dos seus pais em casamento quando queriam aliar a necessidade de sexo com a obrigação social de constituir família, deixar herdeiros e outros arranjos de ordem puramente comercial.

Modernamente o homem não compra mais a mulher em casamento, cultiva-se a ideia de “amor romântico” mas permanece a lógica comercial nas relações de que ele deve conquistá-la através de exibicionismo financeiro, seja porque mulheres são fúteis e gostam mesmo “é de dinheiro”. Seja porque mulheres aprendem que um “homem bom” é aquele que demonstra solvência financeira para prover uma família. Então a lógica da negociação sexual que não passa pela violência direta ou velada pula direto para a estratégia de compra. Presentes, jantares, jóias, viagens.

Antes da violência pura e simples, tenta-se comprar o consentimento com o nome de “conquista”.

Pense em todos os contos de fada que você já leu. Quem é o príncipe? O homem rico que dá a mulher uma vida de “princesa”. E o que é ter uma vida de “princesa”? Uma vida de luxo, riqueza e ostentação. O príncipe é desobrigado de ser um cara minimamente decente. O príncipe da Branca de Neve dá o primeiro beijo nela quando ela está desacordada (!!!), o príncipe da Bela e a Fera… é uma fera, literalmente. O príncipe da Cinderela dá uma festa pra escolher um mulher como se fosse fazer compras no supermercado. Nem nome esses personagens tem. Nem muito bonitos eles precisam ser também (a Fera que o diga), mas o que todos eles têm em comum? São estupidamente ricos.

Pense em todos os filmes românticos que você já viu. Nos livros que você já leu. O homem ideal, ideal mesmo, é sempre rico e bem sucedido, ou pelo menos muito promissor. Ele não precisa ser bonito necessariamente. E ela sempre é estonteantemente bela. A ideia de “romance” e “conquista” começa a acontecer quando o homem começa a dar coisas ou levar a mulher para fazer coisas (jantares, festas, etc). Já é pré-estabelecido no ritual da paquera que homens pagam a conta ao passo que mulheres devem comparecer estupidamente bonitas para agradar e alimentar o desejo masculino. Ele paga o motel já que ela… fez sexo?

Mulheres casam e ficam reféns dos seus maridos caso não tenham autonomia financeira. Porque o trabalho doméstico e de cuidado com os filhos não é visto como trabalho e a mulher muitas vezes está presa em casa sem nenhuma possibilidade de gerar a própria renda e homens lhes cobram sexo como se elas lhe devessem um favor. Que ela faz porque “ele coloca tudo dentro de casa”. Como se comer a comida que ele compra e que ela cozinha todos os dias precisasse ser paga. E sexo paga. E homens cobram. Muitos homens não querem que mulheres trabalhem ou tenham sua própria renda porque mantém essa lógica de dominação nos seus lares. Querem sua escrava sexual particular.

Normalizou-se a lógica de coerção financeira para a negociação sexual onde como sempre a vontade da mulher em fazer sexo é secundária. Ela é um corpo sendo negociado. Sexo é deslocado do lugar de uma coisa que é feita por duas pessoas que se desejam e querem obter prazer daquilo, para ser um “serviço” que mulheres podem prestar aos homens.

“Mulheres são interesseiras” eles aprendem, “só querem o seu dinheiro”. “Homens só pensam em sexo”, elas aprendem, “fazem qualquer coisa por isso”. “Por que não? Não custa nada.”

A prostituição não é um trabalho mas talvez seja realmente uma das práticas mais antigas do mundo porque mulheres sempre foram mais vulneráveis financeiramente e são coagidas de inúmeras formas a fazer sexo com homens desde tempos imemoriais. Já que a vontade dela, a necessidade dela, o desejo dela, o orgasmo dela, o querer dela, é desprezível, e desprezado. A prostituta ocupa o lugar de fornecer o sexo com o menor esforço possível antes de se apelar para o uso da violência física.

E no desdobramento mais violento homens simplesmente tomam mulheres à força. Porque “no fundo ela quer”, ela está “fazendo cu doce”. Homens aproveitam-se de mulheres bêbadas, homens dopam mulheres, homens aproveitam-se de mulheres dormindo, mulheres inconsciente, mulheres em coma. E saem rindo e pensando “tenho certeza que ela está gostando”.

Estupro é sobre poder porque homens nesse momento expressam toda sua misoginia e todo seu ódio e sentem prazer na subjugação do corpo feminino e no seu sofrimento explícito. Mas estupro é também sobre sexo porque homens aprendem que o consentimento feminino não é importante e que ele pode obter sexo de qualquer mulher, a qualquer momento, usando qualquer recurso, caso queira. Muitos homens sequer se dão conta de que aquilo que estão fazendo com aquela mulher é estupro, “porque ela não gritou”.

Isso é tão extremo que muitos homens que não conseguem obter sexo passam a odiar tanto mulheres que se declaram celibatários voluntários. Também conhecidos como Incels. E se reúnem online para planejar, noite e dia, o massacre de mulheres que acreditam que nunca fariam sexo com eles espontaneamente. E depois saem metralhando escolas e cinemas.

Na pornografia você vê mulheres sofrendo violências terríveis que são mostradas como sendo um ato sexual. São penetradas violentamente, são espancadas, são humilhadas, são xingadas. E as atrizes, apesar da dor física, emocional e psicológica que estão sentindo estão ali coagidas e sendo pagas para fingir que gostam. Homens aprendem que mesmo com violência, elas gostam.

Pornografia é estupro filmado. É como meninos e meninas aprendem que sexo se parece. A pornografia dita hoje como nos comportamos cotidianamente e como somos vistas pelos homens. Sempre objetificadas e sexualizadas.

Mas veja só. De repente estão te dizendo que algo mudou. Agora você tem ESCOLHAS! Você pode mostrar seus peitos por aí! Você pode tirar fotos peladas se quiser. E ok que no fim das contas suas fotos são parar em sites pornográficos onde a imagem do seu corpo vai ser objetificada e comercializada. Mas oras, estamos livres! Agora você pode dizer “sim” mais rápido que o habitual. Senão você é “careta”. Senão você é “antiquada”. E agora inclusive homens sentem-se desobrigados do ritual da “conquista”. Mal se dão ao trabalho de serem decente. O que prova que toda a educação que existia era apenas um interlúdio para conseguir sexo. Que agora eles conseguem bem mais rápido porque mulheres são “livres”. E a-do-ram transar! Então o sexo que era uma — frágil — moeda de “negociação” usada por mulheres para tentar estabelecer relacionamentos, agora virou o que? Obrigatoriedade. Ou transa ou cai fora. E aí fazer sexo desenfreadamente e sem critérios está tão padrão que inventaram até um nome (demissexual) para pessoas que querem fazer a coisa mais antiga e normal do mundo: transar após ter alguma conexão com o indivíduo.

E quem está se dando bem com isso tudo: homens é claro. Que continuam fazendo cada vez mais sexo, agora com muito menos esforço.

E mulheres? Estão livres. Livres para continuar agradando homens e correndo atrás da sua aprovação, como sempre.

Afinal, é claro que toda mulher sabe que continua sendo julgada pelo timing em que resolve transar com um homem que está conhecendo. A contabilidade do momento certo para tentar garantir uma mensagem no dia seguinte continua. Só que agora já que não se pode mais protelar o sexo — objetivo final (e senão único) da busca do homem, mulheres estão buscando novas estratégias para manter a presença masculina. Então agora além de acertar o minuto exato de dizer aquele “sim” progressista também devemos ser furacões sexuais que gozam imediatamente e fazem todo tipo de estripulia. Topam tudo. São intensas. Nada de sexo “baunilha”. 50 tons de cinza é o ditame.

É a narrativa do pornô construindo mulheres que gozam de qualquer jeito, a todo custo, sem muito esforço nem participação masculina. Com homens que transam cada vez pior, aliás. Nunca foi tão difícil encontrar bons parceiros sexuais. Homens sofrem de todo tipo de distúrbio sexual, ejaculação precoce, impotência, desinteresse. Estão desaprendendo a fazer sexo. Por causa da pornografia. E mulheres estão cada vez mais presas nessa armadilha. Mas agora iludidas de que estão “escolhendo”. Porque são “livres”.

Você é livre? É livre para transar sem depilar? Sem estar neurótica em relação às formas do seu corpo? É livre para escolher não transar naquele momento? Para parar uma transa no meio porque está ruim? É livre para ir a um primeiro encontro sem maquiagem, sem depilação impecável, sem fazer as unhas, sem roupinha sensual? É livre para abrir mão do jogo da sedução que cada vez mais só as mulheres executam, enquanto homens não só se dão cada vez menos ao trabalho de agradar mulheres como ainda inventam coisas como “relações poliamorosas” para justificar continuar transando com o maior número de mulheres possível sem nenhum envolvimento efetivo com nenhuma delas? E que as mulheres “modernas”, “livres” saem topando, sem notar que os únicos beneficiados são sempre eles?

Você é livre? Mulheres nunca estiveram tão presas nas armadilhas da feminilidade. Enlouquecidas com um padrão de beleza que é impossível de se cumprir. Reféns de milhares de procedimentos estéticos, cirúrgicos, soterradas embaixo de camadas e camadas de maquiagem e filtros de instagram para vender uma imagem pasteurizada de si mesmas. Uma imagem que é a imitação perfeita de um padrão criado pela industria pornográfica. Magras, sem pelos, pele perfeita, vulvas simétricas e rosadas, lábios carnudos. Eternamente jovens. Aspecto frágil. Vulnerável. Suscetível a todo tipo de violência.

Aprendemos a ser “sensuais”, “sedutoras”. A manter a chama do desejo e a imaginação masculina sempre ligada nessa voltagem da caçada. Por que homens não aprendem que precisam ser sensuais? Por que não existem signos de sensualidade para homens? Porque o homem não precisa se preocupar com o desejo feminino de maneira nenhuma. Não é importante. Somos nós sempre educadas a estar disponíveis sexualmente. Desesperadas porque estão ficando sem recursos para cumprir a determinação única da sua socialização: agradar e ter um homem para si. Custe o que custar. Um custo cada vez mais alto.

Liberdade é poder dizer “não”. E mulheres nunca puderam dizer “não”. Mulheres ainda não podem dizer “não”. Mulheres hoje estão dentro da armadilha perfeita. Não existe liberdade sexual em uma cultura do estupro. Acorda, garota.

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