Por que precisamos saber fazer uma análise de conjuntura feminista?

Antes de tudo é preciso compreender o que é uma análise de conjuntura para só depois passarmos para os elementos teóricos e conceituais; situar o feminismo dentro dessa metodologia e assim trazer elementos da pedagogia feminista para a análise. E o que seria essa tal análise de conjuntura? E por que ela é tão importante para nós mulheres? 

 A análise de conjuntura buscar entender o momento de agora, o que está acontecendo nesse recorte temporal da atualidade, fazendo uma análise de conjuntura a gente pode definir estratégias e não gastar energia com debates que não vão pra frente. A análise de conjuntura é própria da militância, tem muita utilidade para o movimento, para os grupos ativistas e é uma ferramenta de luta estratégica que antecipa ações. Para as feministas ela é importante para nós pensarmos com a nossas próprias cabeças e andarmos com os próprios pés, não sair por ai falando e comentando a análise dos outros.

Diálogos feministas: análise de conjuntura e desafios para a defesa da democracia — Publicação da Fundação Friedrich Ebert e SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia

A análise de conjuntura se posiciona entre o “querer” e o “agir”, tem muitas pessoas que fazem a análise de conjuntura de forma individual para conversar, se posicionar politicamente pela fala, se colocar no mundo. Mas, a melhor utilidade para análise de conjuntura é a ação, tanto que um análise de conjuntura feminista de um movimento como a Marcha Mundial das Mulheres vai ser feita em conjunto, de maneira horizontal e vai colocar as ativistas para se posicionarem politicamente e pensarem o mundo de hoje criando estratégias e pautas importantes para a democracia. É um ato político, ela não é neutra, é uma práxis de luta, ou seja, pensar criticamente o fazer.

É importante que esteja claro que só faz análise de conjuntura quem faz parte do grupo de pessoas que acredita que existe no mundo uma estrutura, relações sociais e uma conjuntura. Estrutura, por exemplo, é a família, o patriarcado; as relações sociais são os polos de poder, ou seja, pode ser entre o trabalhador X empresário, homem X mulher; e a conjuntura é o hoje, no caso o agronegócio é a conjuntura da atualidade que já foi o latifundiário do passado. Dessa forma, não podemos confundir as estruturas com as conjunturas, a primeira é de longo prazo, como visto acima, o patriarcado, a segunda é de curto prazo, vão existir mudanças de curto prazo, ou seja, mudanças conjunturais que vão conseguir alterar as estruturas, mas elas são mais enrijecidas e mudam mais devagar.

A metodologia para se fazer uma análise de conjuntura é através de alguns enquadramentos: 1) primeiro, levar em consideração a diferença entre fatos X acontecimentos, ou seja, fatos são os eventos do dia a dia, um acontecimento tem um dimensão maior e condiciona a conjuntura, então, na hora da análise é importante ter em mente os acontecimentos; 2) pensar a arena: é saber quais são os palcos onde as lutas estão sendo travadas, é prestar atenção nos vários campos que os acontecimentos estão tomando forma; 3) força: pode ser a quantidade de militantes, capacidade de deslocar, movimentar; 4) correlação de forças: é entender como os atores estão se relacionando, se através de correlação, de confronto, de coexistência; 5) atores: são as pessoas, as empresas e os movimentos; 6) e nunca esquecer de pensar o “novo“: que é o exercício de acreditar que algo sempre está surgindo ou nascendo, o próprio Bolsonaro é o novo que muitas feministas não acreditaram que iria surgir. O novo pode ser positivo ou negativo, mas a gente precisa ter condições de percebê-lo. 

A análise de conjuntura não é uma análise social, é uma análise política, não é uma interpretação social, ou uma forma de ver o mundo, é uma tomada de posição. E é no coletivo que essa tomada de posição tem consequências para mudar as estruturas. A articulação do mundo é muito importante, porque o mundo não está fora de nós, então as lutas devem ser articuladas e devem ser coletivizadas para mudarem as estruturas. A própria organização das mulheres precisa ser para todas e precisa chegar nas mulheres como um todo, inclusive nas que não podem estar presentes na construção política diária. Não podemos julgar aquelas que não estão organizadas nos movimentos tradicionais. Porque, na verdade, todas nós estamos resistindo. E as lutas que todas nós fazemos, em seus diferentes lugares, é importante.

Sabe-se que analisar o contexto político do Brasil no período recente não é um exercício fácil. Muito menos, é a atuação nesse momento para defender os direitos e a própria democracia. Muitas feministas estão cansadas, sem esperança, sem fôlego. Mas é preciso pensar uma ação política unitária da esquerda e, dentro dela, uma ação feminista para se contrapor ao avanço do neoliberalismo e dos fundamentalismos. Trago a tona alguns diálogos e pontos apresentados por um grupo de ativistas (eu estava presente) que se propuseram a constituir um espaço de reflexão e elaboração feminista dessa conjuntura, organizado pela SOS Corpo — Instituto Feminista para Democracia, ministrado pela educadora Silvia Camurça, no Recife. 

Um ponto importante nessa conversa foi enaltecer a criatividade, nessa conjuntura, precisaremos ter muita capacidade criativa para conseguir resistir. Estamos todas preocupadas com esse momento, não só com os partidos políticos, mas do ponto de vista da nossa sobrevivência mesmo, das nossas vidas. Por isso, para lidar com essa realidade é necessário criar uma rede de solidariedade, porque nós estamos recebendo denúncias, nossas militantes estão sendo perseguidas, as feministas são atacadas online, as professoras estão com receio de entrar em sala de aula. Então, as liberdades democráticas e o pouco que conquistamos até aqui estão em risco. É importante que seja cada vez mais real para cada uma e todas nós a ideia de que “ninguém solta a mão de ninguém”

Outro aspecto importante é o entender nossa história. Estamos fazendo uma análise de conjuntura, do presente, claro, e o contexto é enlouquecedor, mas é preciso compreender os caminhos que nos trouxeram até aqui para construir o momento que virá. Quais foram os nossos erros que possibilitaram que Bolsonaro tenha conseguido capturar o discurso antissistema? Muitos apoiadores de Bolsonaro acreditam que são vítimas desse sistema político corrupto, de uma esquerda que rouba, de um político chefe de quadrilha, do maior esquema de corrupção que o Brasil já conheceu, quando a classe dominante se coloca no lugar de vítima, é quando eles vão tomar o poder. Estamos diante de uma encruzilhada difícil, porque o autoritarismo religioso e o autoritarismo político andam de mãos dadas e estão muito fortes. 

Parte da nossa autocrítica é perceber que durante muitos anos não acompanhamos o avanço dos debates da direita. E em muitos momentos não demos a importância devida. Demos muito pouca atenção a Olavo de Carvalho, demoramos muito tempo para discutir o Instituto Millenium, e quase não acreditamos no poder formativo da escola Austríaca. Agora estamos diante do desafio de compreender como esses discursos se fortaleceram e se espalharam pelo Brasil para traçar estratégias de combate. O momento tem exigido muitas reelaborações. A reflexão e o pensamento crítico são ferramentas importantes. 

A democracia é um tema importante e precisamos trabalhá-lo melhor, porque seu significado parece estar sendo esvaziado.A grande batalha desse momento é uma batalha de ideias e narrativas. Nossos discursos e valores têm sido apropriados pela direita. Isso é muito mais do que uma questão semântica ou hermenêutica, porque existe um projeto de poder por traz dessa apropriação. Essa é uma das questões mais complexas que estão colocadas nesse contexto. Como dialogar com as pessoas quando todos os nossos conceitos são capturados pelo outro lado?

A direita tem se comunicado melhor que nós e não vamos julgar aqui quem utilizou ou não de fakenews, a realidade é que é mais fácil para eles se comunicar porque eles não tensionam o senso comum. Para disputar essa hegemonia, precisamos pensar como a gente se comunica. Podemos explorar melhor as diversas ferramentas que existem na internet, como vídeos, memes, áudios e repensar a nossa linguagem. Mas a questão não é só a internet, precisamos pensar novas formas de nos comunicarmos com as pessoas. O diálogo corpo a corpo, iniciativa autônoma e individual, que tomou as ruas no segundo turno das eleições nos mostrou que também é preciso repensar formas de comunicação para além da internet.O diálogo exige escuta. O momento tem nos mostrado a urgência de repensarmos não apenas como falamos, mas o que falamos. Estar abertas ao diálogo significa também abertura para repensar nossas certezas.

Parte do processo que nós vivemos hoje está ligado à nossa falta de entendimento sobre o que significou e o que significa ocupar o poder. Estamos diante de uma crise profunda, que exige uma reflexão sobre o sentido do poder. Caso contrário, corremos o risco de acreditar que está tudo bem, que precisamos apenas reorganizar as bases e seguir com o projeto que estava sendo construído. Um caminho para o combate ao autoritarismo presente na esquerda é a construção de espaços reflexivos e de autorreflexão. Porque ninguém vai fazer autocrítica por decreto.

Estamos vivendo um tumultuado tempo de derrotas na esquerda, a Dilma foi deposta, o Lula foi preso, não alcançamos a vitória de Haddad. Ver Bolsonaro presidente é uma agonia diária. São muitas histórias de depressão, adoecimento, abandono dos espaços de militância. Nós precisamos sobreviver e nós precisamos nos fortalecer. A dignidades das mulheres, da população negra, da população LGBT e da parcela mais pobre na população. São graves também os diversos casos de mulheres espancadas que têm suas fotos espalhadas na internet, de vazamento de conversas íntima por jogador de futebol, de matança da população negra, indígena, quilombola, marisqueira, entre outros, a era do humanismo esta realmente chegando ao fim e estejamos vivendo um momento regido pela lógica da necropolítica, que requer a desumanização brutal de enormes contingentes da população. 

Os movimentos feministas têm elaborado outras formas de ocupação das ruas, que estão, em certa medida, relacionadas à própria construção política feminista. A horizontalidade dos movimentos feministas tem potencializado o envolvimento de grupos que dialogam com expressões artísticas das mais diversas, vindas das periferias, das universidades, de círculos de artistas mais consolidados, de artistas de rua, entre outras. Não foram os carros de som ou formas de organização mais tradicionais que engajaram e levaram multidões de mulheres às ruas nos últimos anos. É a partir de reflexões como essa, feita através de um conjunto de mulheres, dos mais diversos grupos, associações e movimentos que espera-se que mais mulheres, individualmente, se for o caso, mas mais fortemente nos espaços coletivos possam alimentar novos debates e inspirar mais ações feministas da esquerda na defesa da democracia e de direitos.

Duda Antonino

buceta ingovernável

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