Toda mulher é uma presa fácil

Toda mulher é uma presa fácil da profunda solidão que é plantada no seu coração.

Fruto de uma vida inteira onde cresceu ouvindo que algo lhe faltava. Que devia ser mais para ser perfeita: mais bonita, mais magra, mais gorda, mais alta, mais baixa, mais inteligente, mais burra. Mais, mais, mais. Nunca o suficiente. Nunca demais.

Toda mulher é presa fácil da profunda carência que é plantada em seu ventre.

Fruto de uma vida inteira de rejeição. De um receituário impossível de seguir para que finalmente seja aceita, querida, admirada, desejada. Amada.

Quantas mulheres não foram seduzidas por migalhas de amor? Por pessoas que vilmente olharam em seus olhos e fingiram ler sua alma, quando apenas queriam usar o seu corpo?

Quantas mulheres não entregaram seu sangue por promessas de aceitação? Por quem assoprou em seu ouvido “você é única”?

Ser única. Ser especial. Ser vista, reconhecida, admirada, aceita, amada.

Quantas mulheres não entregam sua vida nas mãos de alguém por essas promessas?

Pela possibilidade de finalmente não se sentir mais tão desesperadamente só?

Não se sentir rejeitada.

Uma estranha. Uma pária.

Que terreno fértil onde a abusividade floresce. Regado todo dia por uma cultura machista, numa sociedade patriarcal, heteronormativa, que enxerga mulheres como coisas.

O quão profundo é o estrago da nossa socialização que impede o fortalecimento da nossa estima e nos deixa a mercê de predadores. Que abre um buraco que parece impossível de ser preenchido que não no cumprimento fiel do destino de esposa e mãe.

Nós crescemos sendo treinadas para sermos vítimas perfeitas da síndrome de Estocolmo.

Toda mulher é uma presa fácil do desamparo e do desalento com que alimentam nossos sonhos. Da falsa perspectiva que somente um homem pode trazer completude.

Fruto da falsa idéia de que não somos inteiras sozinhas. De que há uma “metade” de nós vagando por aí à espreita.

Vítimas fáceis de qualquer “você me completa”. Vítimas fáceis de quaisquer promessas de um amor capenga. Mesmo que seja um amor que nos desmereça. Nos humilhe. Nos agrida. Nos destrua.

Porque nos é negado, desde sempre qualquer amor.

Aquele amor que ama incondicionalmente.

Somos talhadas nas condições. Se você for assim. Se você fizer desse jeito. Talhadas para atender pré-requisitos. Talhadas para aceitar qualquer chantagem em troca deste amor incondicional que nunca conhecemos.

A grande jogada do patriarcado é nos impedir de sermos amadas.

E a revolução está justamente em conseguirmos nos amar. Como somos. Não importa.

Amar a si mesma incondicionalmente. Liberta.

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