A Cor da Comida: como a agricultura comunitária pode nos curar de uma história de racismo
Natasha Bowens
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Duas jovens visitando o Sítio Orgânico Comunitário Marshview (Marshview Community Organic Farm), Ilha de Santa Helena, Carolina do Sul, Estados Unidos. Foto: Natasha Bowens

Quando decidi virar agricultora, foi porque eu queria encontrar um jeito de cultivar alimentos que trabalhasse junto à terra em vez de contra ela. Eu queria cultivar alimentos que rejuvenesceriam o meu corpo em vez de me atrapalhar. Como tantas outras pessoas, eu buscava respostas no movimento “good food” que tomava conta do país. Pensei que para ser uma boa guardiã [steward], tudo que precisava fazer era seguir práticas agrícolas sustentáveis e cultivar alimentos saudáveis. Agora, passados seis anos e tendo colocado os meus pés em mais de 75 chácaras para escrever A Cor da Comida (The Color of Food), aprendi que havia perdido de vista do essencial.

Sentar à mesa com tantos agricultores que fazem esse trabalho revolucionário me ensinou que a agricultura não é só sobre conservar a terra; é também sobre servir à comunidade e cuidar da alma. A terra sob nossos pés carrega a nossa história, carrega a liberdade. É revigorante e empoderador, assim como pode ser um comum que nos interliga. Minha história guarda as marcas do momento em que os pés acorrentados dos meus ancestrais tocaram esse solo, quando o agricultor africano se tornou o escravizado americano. Hoje, o racismo perpetuado faz com que a cura se torne crucial. Em nossas hortas e nossas chácaras, podemos resgatar uma conexão com a terra que estava ali muito antes da opressão. Podemos nos libertar ao exercer soberania sobre o nosso pedaço de chão, sobre a nossa comida e sobre os nossos corpos.

Assim que terminei o livro, estava ávida para me tornar a guardiã da minha comunidade. Hoje, trabalho na coordenação de hortas comunitárias, administrando duas hortas comunitárias e programas de alimentação em algumas das minhas vizinhanças locais. As comunidades dessas vizinhanças são em sua maioria de baixa renda, negras e latinas. Cultivamos a horta e cozinhamos juntos, mas na minha experiência, o acesso à alimentação saudável é um objetivo secundário do nosso programa. As hortas são importantes, mas é a comunidade que faz a horta. Quando trabalhamos juntos, partilhamos refeições juntos, e damos risadas juntos, enquanto uma comunidade estamos consertando a nossa relação com a terra.

Recentemente, tivemos um evento traumático em uma das comunidades horticultoras: Um tiroteio provocado por um não-morador aconteceu bem em frente à horta e foi testemunhado por várias crianças. Um jovem da comunidade vizinha morreu naquele dia, o que deixou os moradores magoados e com raiva. A mídia esfregou sal na ferida quando tratou o assunto com os estereótipos tão frequentes quando a violência acontece nas comunidades racializadas: que isso foi típico, até mesmo esperado, naquela vizinhança. A resposta da comunidade foi poderosa. Em lugar de aceitar a narrativa negativa, em vez irem para suas casas se esconder da violência, os moradores decidiram que a única maneira de reagir era se unir, deixar a ferida cicatrizar e mostrar a que veio essa comunidade. Apenas alguns dias depois, fomos nos reunir na horta. De costas para o pôr do sol que lançava uma luz dourada através das plantas e árvores, celebramos a nossa primeira colheita. Cavamos o solo com as nossas mãos, sentindo o toque restaurativo conforme arrancávamos alfaces, repolhos e cenouras. Depois, sentamos em volta da mesa de piquenique dando risadas juntos, partilhando comida, escutando dos passarinhos uma canção de resiliência.

Isso, para mim, é o verdadeiro significado de ser guardiã. São essas histórias que me fazem seguir cavando mais fundo do que imaginava, quando peguei naquela pá de jardinagem pela primeira vez, há seis anos. É o que me leva a a cultivar espaços e oportunidades para que as pessoas se reúnam, comam um bocado do seu auto-empoderamento e saboreiem a beleza da sua alma. Para mim, não há recompensa mais rica do que aquela.

Trecho de A Cor da Comida, de Natasha Bowens

A Nação Gullah/Geechee, liderada pela Rainha Quet, é um povo Gullah Geechee cujas raízes na África Ocidental e Central foram preservadas com firmeza desde que seus ancestrais chegaram [nos Estados Unidos] como escravizados. As Sea Islands [algo como Ilhas do Mar, cadeia de ilhas na costa atlântica] e o que é conhecido como Low Country ao longo da costa desde Wilmington, Carolina do Norte, até Jacksonville, Flórida, são o lar da Nação Gullah/Geechee. As planícies e os pântanos dessas áreas se destacaram na produção do arroz nos séculos XVII e XVIII, e os africanos das regiões com cultivo tradicional do arroz na África Ocidental foram trazidos para realizar o trabalho árduo. Isolado nas Ilhas Gullah, o povo Gullah Geechee desenvolveu um forte senso comunitário e foi capaz de melhor preservar a sua herança cultural africana do que outros grupos de afro-americanos. O povo Gullah desenvolveu um idioma crioulo separado, semelhante à língua Krio da Serra Leoa, e dá continuidade a padrões culturais distintos no seu idioma, suas artes, artesanatos, crenças religiosas, folclore, rituais e práticas alimentares, em que arroz, pesca e caça possuem papel importante.

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A nação Gullah/Geechee foi reconhecida em 2 de julho de 2000. Foto: https://gullahgeecheenation.com/

“A história dessa ilha tem como base a sobrevivência comunal,” diz Sará. “Fomos isolados aqui numa ilha rural. Antes que construíssem a ponte, você tinha que pegar um barco para chegar à cidade. Então as pessoas aprenderam a ser autossuficientes e fazer com as próprias mãos o que precisavam para sobreviver. Esse foi o epicentro, com a Penn School [primeira escola para afro-americanos no sul dos Estados Unidos] ensinando a todos da ilha como cultivar a terra e criar um ambiente em que você não precisava ir até Beaufort para muita coisa, apenas aquilo que nós mesmos não conseguíamos fazer aqui. Grande parte do que tínhamos bem aqui nessa comunidade era suficiente para sobreviver.

“A gente fazia assim, cultivando e partilhando e vendendo a nossa própria comida. Cresci numa família com dois irmãos e quatro irmãs. Todos crescemos na agricultura e ajudando a minha mãe na roça. Conforme crescíamos, praticamente toda pessoa tinha uma pequena horta e cultivava algo. A minha horta era conhecida por plantar amendoim, batata doce e tomate. Todo mundo sabia quando era tempo de colher amendoim, de colher quiabo, e a ligavam para comprar um alqueire de amendoim, quiabo ou os dois. Eu fazia a entrega das encomendas e não ligava, já que eu poderia dirigir o carro. Tinha uns 13 ou 14 anos e a regra para a gente era que se você sentasse ao volante com a coluna bem reta, ninguém enchia o saco. Eu fazia entregas por toda a ilha, dirigindo em estradas de terra. Mamãe também era famosa pelas bisnaguinhas, e toda vez que ela assava várias fornadas, eu as entregava aos vizinhos que estavam doentes ou que tinham ligado para ela pedindo os pãezinhos. A comida tinha lugar central na nossa comunidade.

“Os principais cultivos que ajudaram a nos sustentar eram as safras comerciais que plantávamos, que nos ajudaram a pagar a faculdade. Minha mãe plantava tomates e pepinos. Esses dois cultivos realmente ajudaram a construir a ilha, naquele tempo em que tínhamos barracões onde distribuidores e grandes fazendeiros chegavam e compravam o que os pequenos agricultores traziam dos seus sítios. Todo mundo da vizinhança sabia que nos meses de verão entre junho, julho e um pedaço de agosto, tudo que fazíamos era colher pepinos e tomates e levá-los até o barracão. Foi o que ajudou a minha mãe a pagar as mensalidade das nossas faculdades. O sítio dava muitos tomates e Mamãe tinha tomates grandes e bonitas que eram a sua fonte de renda; nós eramos os braços que a ajudavam. Ficávamos colhendo e capinando o verão inteiro.

“Meu outro bisavô foi um extensionista rural que ajudou os agricultores e a todos da região a cultivar e usar a sua terra para gerar renda e se tornar autossuficiente. Ele também ajudou as fazendas a criar animais da maneira adequada. E todos ajudavam uns aos outros daquele jeito. Se uma pessoa era agricultora e plantava muita batata doce, então eles dividiam. Se outra pessoa plantava pepino ou abóbora ou hortaliças, eles dividiam. Se essa pessoa criava gado, toda vez que ele abatia um boi ou um porco, ele partilhava um pedaço daquilo. E todos sabiam quando alguém matava um porco, era uma celebração, e eles iam para a casa daquela pessoa de manhã cedo para ajudar, e todos eles tinham seus cortes de carne preferidos para levar para casa, então todos alimentavam as suas famílias. Foi como construíram a casa da minha mãe e meu pai. Todo mundo vinha aos domingos, e de tijolo em tijolo construíam a casa. Isso fez a vida valer a pena para todos sem que ninguém passasse aperto. Amo aquele conceito, e tento vivê-lo e passá-lo adiante.”

“A cultura do povo Gullah é fundada sobre a benevolência,” Bill acrescenta na sua voz gentil e sotaque patoá, rico em traços da língua Gullah. “Uma pessoa Gullah person vai ser mais ligeira no serviço, e a gente não se importa em ajudar. É uma coisa bem espiritual. Sair pescar no riacho, trazer o peixe de volta, compartilhar com todo mundo. Benevolência. Trabalhamos com a nossa comunidade inteira, e também o nosso ambiente. Amamos a natureza, e sabemos como trabalhar com a natureza na vida. Trabalhamos com os ‘poppers’ [toninhas ou golfinhos], saímos de barco, os ‘poppers’ perseguem os peixes riacho acima e nós vamos atrás. Batemos no barco para que os ‘poppers’ apareçam e joguem os peixes para dentro do barco. O povo Gullah aprende como trabalhar com os animais e a natureza; aprendemos como respeitar toda a nossa comunidade.

“Plantávamos juntos, sempre olhamos um pelo outro. Cresci em James Island do outro lado dessas águas e na época da minha adolescência eu já tinha a agricultura no meu sangue. Cresci perto da roça, e todos trabalhávamos na lavoura para nos sustentar, saindo depois das aulas para ir colher feijão para os fazendeiros. Eu ganhava 13,50 dólares por semana, e era o suficiente para sobreviver. Podíamos ir até o mercado e comprar um saco de arroz por 50 centavos e colher alimentos da horta e cozinhar para a família inteira.”

Cozinhar é outra coisa que Bill tem feito a vida inteira. Ele é chef e dono do restaurante Gullah Grub, que serve pratos Gullah na ilha, atraindo gulosos esfomeados de todo o país, inclusive celebridades chef como Anthony Bourdain e Martha Stewart. Muita da comida que cozinham é cultivada em Marshview ou pescada localmente.

Sará e Bill, ou Sr. Bill como é chamado pelas crianças, coordenam um programa para jovens no sítio deles e no restaurante Gullah Grub. Com a paixão de Sará por trabalhar com crianças, como conselheira de orientação na escola fundamental St. Helena Elementary, e a paixão do Sr. Bill pela cozinha e pela transmissão da cultura Gullah, os dois encontraram uma oportunidade perfeita para ensinar agricultura, culinária e cultura alimentar a jovens da ilha. Eles trabalham com crianças e adolescentes entre 4 e 18 aos e pagam bolsas para trabalhar e aprender habilidades no sítio, assistir a aulas de culinária com Sr. Bill, e aprender todo o processo do campo à mesa. Alguns dos adolescentes acabam trabalhando no restaurante do Sr. Bill, adquirindo as habilidades profissionais para cozinhar e servir, enquanto outros trabalham na feira de agricultores, aprendendo o processo da colheita e venda dos produtos. Sará começou uma horta na escola e incorpora alimentação, agricultura e comunidade no currículo da sua orientação. Ela leva muitos dos seus alunos para o sítio depois da aula, e outros não param de se inscrever quando ficam sabendo por meio dos colegas. A juventude está se denominando Jovens Agricultores do Low Country, e eu tive o prazer de trabalhar a terra ao lado deles durante a minha estadia no Sítio Marshview.

Depois de encerrar o trabalho de campo, as crianças fazem a colheita de alimentos para levar à família, e eu dirijo até Gullah Grub para um rango, o gombô de camarão com arroz vermelho do Sr. Bill. Há duas mulheres sentadas na varanda da frente do restaurante, tecendo cestas. Enquanto eu sento na cadeira de balanço perto delas e saboreio a deliciosa comida Gullah, penso sobre os jovens, a comunidade e as ricas histórias misturadas com cada mordida. Literalmente consigo sentir com o paladar o amor que Sará e Bill têm por essa ilha Gullah e tanto trabalham para passar adiante.


Original por Natasha Bowens em 03/11/2015, para Yes! Magazine

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