Da "Mulher como Objeto" ao "Objeto como Mulher"
Da "Mulher como Objeto" ao "Objeto como Mulher"

Yağmur Arica é uma cientista política que se formou em ciências feministas. Ferozmente abolicionista, ela traduz, pesquisa e escreve sobre a questão da prostituição há vários anos e contribuiu para o Relatório Global da Fondation Scelles. Ela tem especial interesse em práticas misóginas que nem sempre são reconhecidas como tal e nos discursos indulgentes que frequentemente as acompanham, como sobre o uso do véu.


FS: Você diz que a revolução digital teve um impacto na maneira como a prostituição é anunciada. Você pode falar mais sobre isso e dar alguns exemplos?

YA: As páginas finais dos jornais locais costumavam estar repletas de anúncios de prostituição, mas foram varridos pela revolução digital e os anúncios on-line agora assumiram o controle. O princípio permanece praticamente o mesmo — o que mudou é a escala da exploração sexual.

Por exemplo, o Backpage, um site de anúncios classificados nos EUA, alcançou um faturamento de US$ 78 milhões em 2012. Duvido que o Metro tenha sonhado com números como esse. O número de anúncios da Backpage em que era óbvio que uma criança estava sendo explorada era tão alto que os executivos da Backpage decidiram limitar o número que reportariam às autoridades em 500 por mês e modificar o conteúdo dos demais para ocultar a realidade de que uma criança estava sendo anunciada. Essa é outra distinção entre publicidade no papel e digital: a orquestração dos bastidores da prostituição e uma manipulação aterradora.

Os executivos do Backpage sabiam muito bem que seu site permitia o abuso sexual de crianças. Eles sabiam como identificar anúncios de prostituição infantil. Mas, em vez de fazer qualquer coisa para proteger essas crianças, eles organizaram para que palavras e imagens incriminadoras nos anúncios fossem alteradas ou excluídas, para que eles próprios não fossem presos.

Obviamente e infelizmente, o Backpage é apenas um exemplo entre muitos, mas é importante porque, graças à lei FOSTA-SESTA, [o site] foi encerrado. Recomendo dar uma olhada na investigação realizada pelo Departamento de Justiça Americano. O tom de zombaria e desprezo usado nas trocas de e-mail demonstra que os homens do departamento não davam a mínima à violência que está sendo praticada contra as crianças bem debaixo dos seus narizes.

Vale ressaltar que o desligamento do site aconteceu nos EUA, embora a prostituição filmada — pornografia — seja protegida, ali, sob o disfarce de ‘liberdade de expressão’.

Outra consequência da revolução digital é que a pornografia é agora principalmente e antes de mais prostituição filmada.

Isso e o surgimento de grandes corporações como a MindGeek, proprietária entre outras coisas do famoso PornHub, também levou a um enorme aumento na escala de exploração sexual.

Sites de pornografia funcionam como publicidade — criando desejos que de outra forma não existiriam. Catharine MacKinnon escreveu sobre isso e explicou como a prostituição filmada gera um desejo de representar o que é retratado e até funciona como um manual para a prostituição tradicional (na qual, em vez de ficar atrás de uma tela, o comprador está fisicamente presente com a mulher que ele prostitui).

Richard Poulin observa que os anúncios baseados em localidades nos sites de pornografia na verdade incentivam os homens a reproduzir nas mulheres locais o que acabaram de ver em suas telas.

Imagem da campanha “The Invisible Men”

FS: Você poderia falar sobre os fóruns de compradores e como eles afetam negativamente as mulheres na prostituição?

YA: A prostituição posiciona mulheres e meninas como objetos ou mercadorias. Depois que sites como o Backpage começaram a facilitar a venda de mulheres e meninas como objetos, era inevitável que os compradores quisessem avaliá-las, já que você pode avaliar praticamente tudo o que compra online agora. Foi assim que acabamos com sites como o Punter.net.

Quanto ao conteúdo, pense nos piores comentários que você já ouviu homens fazerem sobre mulheres e depois multiplique por dez. Eu recomendo o trabalho excepcional realizado por feministas dos projetos The Invisible Men e Prostitueurs que reproduzem as opiniões dos compradores, incluindo alguns dos piores exemplos.

Os homens insultam as mulheres que abusaram, descrevem os atos insuportáveis ​​de violência que cometeram e mostram, assim como os proprietários do Backpage, que estão perfeitamente conscientes do sofrimento físico e psicológico das mulheres.

Os locais onde os atos ocorreram são conhecidos, então as autoridades não têm desculpa para não investigar os homens. O mais doloroso é quando você vê mulheres se desculpando para “compradores” insatisfeitos.

Defensores da prostituição acusam as feministas que tentam abolir a prostituição de tentar tirar oportunidades de trabalho das mulheres (porque o estupro pago, obviamente, conta como trabalho em qualquer universo em que habitam), mas esquecem, como sempre, o papel vital desempenhado pela demanda masculina.

Quando um homem escreve um comentário negativo sobre uma mulher, impedem que outros compradores em potencial a visitem. São as vozes dos homens que importam. Assim como os imperadores romanos, o polegar para cima ou para baixo aponta o destino dela.

Duvido que muitas das mulheres que são ‘avaliadas’ nesses sites realmente tenham acesso a esses comentários. Existem casos óbvios de mulheres estrangeiras que não falam o idioma local e que provavelmente são vítimas de tráfico humano. Não tenho tanta certeza de que seus cafetões permitam que elas personalizem seus perfis on-line…

FS: Você diz que anúncios de prostituição on-line usam a mesma fórmula que aplicativos de namoro. Pode dar alguns exemplos e explicar o que quer dizer com isso?

YA: o aplicativo alemão Peppr (da palavra alemã “foder”) imita aplicativos de namoro como Grindr e Tinder. Sua criadora tinha dó das mulheres que estavam congelando nas ruas alemãs e criou o aplicativo para que elas pudessem se conectar com os compradores enquanto ficavam quentinhas — naturalmente, com uma margem generosa para si mesma.

Há também o RichMeetBeautiful do norueguês Sigurd Vedal, que fez um golpe publicitário exibindo pósteres fora das universidades belgas e francesas. O objetivo do site é colocar homens ricos em contato com jovens pobres. A proporção de utilizadoras mulheres para homens — quatro mulheres para cada homem — tem até um sabor religioso. Reflete o número de esposas no Islã e ecoa os preceitos mórmons (um bufê de esposas à vontade do marido) … Com o tempo, afinal, é possível aprimorar o machismo…

Por que há tanta confusão sobre os limites entre sexo e prostituição? Entre os mitos da prostituição, há inclusive contra o qual as abolicionistas lutam que diz que a prostituição é sexo por dinheiro. Vemos isso manifesto na expressão “comprador de sexo”. Mas, na realidade, a prostituição é estupro com dinheiro.

Quando dizemos “sexo por dinheiro”, sugerimos que a prostituição é uma atividade sexual como qualquer outra, mas com um pouco de dinheiro envolvido. Mas, na verdade, o dinheiro define fundamentalmente o encontro da prostituição e o diferencia radicalmente da relação sexual.

Lise Bouvet explica que o dinheiro é a prova de que o sexo não é desejado e a arma da restrição sexual. O encontro nunca teria acontecido se não fosse pelo dinheiro. E se removermos o dinheiro do encontro da prostituição, o que temos, se não estupro?

Sites de prostituição que copiam sites de namoro tentam reforçar a falsa ideia de que prostituição é apenas sexo. É uma estratégia brilhante para evitar qualquer tipo de consciência geral sobre o que realmente é a prostituição. ‘Sexo por dinheiro’ é colocado no continuum de possíveis relacionamentos, como se estivéssemos apenas adicionando outra categoria além de ‘relacionamentos sérios’, ‘encontro casual’ etc.

Mencionei especificamente o site RichMeetBeautiful porque finge que está preenchendo uma lacuna numa área dúbia que pressupõe esse tipo de continuidade. E quando se trata de sites de namoro comuns, podemos ver, especialmente com Tinder — o local ideal para qualquer vontade noturna — que eles se assemelham ao esquema de prostituição: sexo rápido, egoísta, sem compromisso.

Nas duas categorias de sites, o que importa é a dissociação: sexo sem emoção e corpo sem mente. Nas duas categorias de sites, o que importa é a dissociação: «sexo sem emoção» e «corpo sem mente». De acordo com essa lógica, poderíamos engajar potencialmente em tantos encontros físicos quanto possível, sem que nossa psique seja afetada positiva ou negativamente e os homens podem impor qualquer ato sexual ao corpo de uma mulher sem perturbar a mente dela. O ponto final, é claro, é que, quando urinam sobre homens, falamos de tortura, mas quando urinam sobre mulheres, falamos de prazer. Para ele, o corpo e a mente são um; para ela, a mente é irrelevante.

É revelador que, na retórica dos direitos das mulheres, o léxico da posse é recorrente: “meu corpo, minhas regras”, “meu corpo é meu”. Mas nós somos o nosso corpo! [1] Cada afronta ao nosso corpo é uma afronta a nós mesmas. É hora de reconhecermos o nosso ser, em vez de reivindicar o nosso ter, o que apenas reproduz a ideia masculina de que as mulheres devem ser possuídas.

FS: Você poderia comentar sobre os vínculos entre os gigantes da comunicação (como o Free) com pornografia e prostituição?

YA: Na França, a Free, uma empresa de telecomunicações de baixo custo, tornou-se um grande sucesso com uma campanha publicitária bem-humorada exibindo um personagem masculino nerd. A mensagem era «Because he had Free, he’s got it» (traduzindo para português seria como dizer “como era grátis, ele conseguiu”). Desnecessário dizer que a publicidade era sexista. Em um dos comerciais de TV, esse nerd estava cercado por lindas mulheres. “Ele conseguiu”. Ele sabe que a violência sexual masculina contra as mulheres é o negócio mais lucrativo que existe: “um retorno interessante e isento de impostos sobre o investimento”, como ele diz.

Minitel 1. 1982

“Ele” é Xavier Niel, acionista majoritário da Free. Antes de se tornar o Sr. Free, ele era o Sr. Minitel, o Sr. Pink Minitel. (Minitel era o ancestral francês dos computadores modernos, uma máquina pesada que você usava para descobrir informações básicas e se comunicar. Incluía linhas de sexo, conhecidas como Minitel Rose ou Pink Minitel.)

Quando jovem, Xavier Niel era desenvolvedor da Minitel e, em 1991, comprou a Fermic Multimedia, renomeando-a para Iliad, que agora é o grupo de telecomunicações do qual Free faz parte. Em 1993, ele lançou o primeiro provedor de internet do país, Worldnet. A última etapa notável da carreira de Xavier Niel foi em 2010, quando ele se tornou acionista majoritário do jornal francês Le Monde, junto com Pierre Bergé e Mathieu Pigasse.

Mas vamos raspar a superfície desta aparente história de sucesso.

Nos anos 80, Xavier Niel conheceu Fernand Develter no café Le Petit Ramoneur, sede não-oficial para funcionários de sex shops na rue Saint-Denis, em Paris, uma rua famosa por todo o tipo de exploração sexual.

Niel e Develter se associaram ao negócio Pink Minitel e reinvestiram meio milhão de euros em shows eróticos. Como sempre, esses locais não se limitavam à contemplação. Em 2001, dois sócios de Xavier Niel que administravam um show erótico em Paris foram processados ​​por proxenetismo. Na época, o Sr. Niel conseguiu escapar por ser uma mera testemunha.

Em 2004, a dupla Niel-Develter foi investigada diretamente por proxenetismo agravado em um local em Estrasburgo. Xavier Niel também era suspeito de ter usado indevidamente os fundos da empresa e foi mantido em detenção temporária na Prisão de la Santé, em Paris. O órgão anti-lavagem de dinheiro Tracfin suspeitou que Niel usava a Iliad para lavagem de dinheiro, mas não conseguiu provar isso. Em agosto de 2005, as acusações de proxenetismo contra ele foram retiradas.

Ele confessou peculato e explicou que, a partir de 1999, não tinha mais nenhum interesse financeiro nos negócios de show erótico, ao que a resposta da acusação apontou que ele simplesmente transferira seus interesses para um membro de sua família. Em 2006, ele recebeu uma sentença de prisão suspensa de dois anos e uma multa de € 375.000 por uso indevido dos fundos da empresa. Enquanto isso, Fernand Develter foi condenado a dois anos de prisão, com outros 15 anos suspensos, por corrupção. É importante lembrar que Pierre Bergé, acionista da Le Monde, foi um doador generoso da Act Up, uma organização pró-prostituição contra a Aids. [2]

Então Xavier Niel está no cruzamento da Santíssima Trindade prostituição-tecnologia-mídia. Sim, ele foi liberado da acusação de proxenetismo, mas nunca negou seu envolvimento na área. Portanto, é justo dizer que a internet na França está ligada ao dinheiro da prostituição. Os setores de informação e mídia de maneira mais geral são vitais, uma vez que a batalha pró e anti prostituição é agora disputada principalmente no campo lexical (‘trabalho sexual’ versus prostituição).

Outra máscara patriarcal que vale a pena mencionar na área de comunicação é Dorcel and son. Se Xavier Niel é o gentil cavalheiro tecnológico da prostituição, esse par é o seu ladino das ruas.

A empresa de prostituição, fundada em 1979, abrange todas as estratégias comerciais tradicionais dos cafetões. Primeiro, a aura de Hollywood: participação em cerimônias no estilo Oscar, contratos exclusivos com certas mulheres… Depois, a legitimação da mídia na Playboy. Simplesmente pela presença na imprensa (Marc Dorcel Magazine e no blog Dorcelle.com), pode-se facilmente fazer uma atividade exploratória disfarçada como um exercício de “liberdade de expressão”. E, finalmente, o ângulo filantrópico de bônus (lembre-se de que a Playboy financiou campanhas a favor do aborto): financiamento coletivo para um novo filme de prostituição e a decisão sempre popular e inevitável de participar da luta contra a AIDS. É tudo sobre como você vende.

FS: Você poderia nos falar um pouco sobre as ‘bonecas masturbatórias’? Quem as produz, seu preço, etc?

YA: Parafraseando Gail Dines, em breve lamentaremos os bons e velhos tempos da horrível boneca inflável. A nova boneca é tirada diretamente de The Stepford Wives.

The Stepford Wives — “As Mulheres Perfeitas”, uma novela satírica sobre uma comunidade perfeita, onde mulheres são donas de casa dedicadas, mães incansáveis e obcecadas em agradar seus maridos

A boneca masturbatória é uma boneca em forma de mulher, em tamanho natural, na qual os homens se masturbam. Algumas bonecas masturbatórias também possuem software de inteligência artificial integrado. São frequentemente chamados de bonecas sexuais ou robôs, mas, como a professora Kathleen Richardson enfatiza, a relação sexual é uma experiência com outra pessoa, enquanto a masturbação é uma experiência individual. Portanto, ‘boneca masturbatória’ está mais correta.

Podemos agradecer aos EUA e ao Japão por esses avanços tecnológicos. Liderando a corrida está a RealDolls Company, fundada por Matt McMullen, da Califórnia. O software desses robôs é o mais avançado que há: eles podem conversar com seus proprietários, excitá-los no modo “obsceno”, podem até gemer e com o tempo se adaptar às preferências de seus proprietários. O preço médio é de £11.000 e a empresa vende cerca de cinquenta modelos por mês.

Depois, temos a TrueCompanion de Douglas Hines, que se destaca do resto com seu robô ‘Frigid Farrah’ capaz de dar uma ereção a qualquer fetichista de simulação de estupro, e também Yoko, sua modelo-mesmo-muito-nova, no limite da legalidade, como dizem na pornografia.

Do outro lado do Pacífico, há Trottla, de Shin Takagi, que também segue a linha de menores de idade e produz bonecas infantis. Aparentemente, um mercado de muito sucesso entre professores do ensino fundamental.

E os homens europeus não ficam para trás: o espanhol Sergi Santos, por exemplo, produz Samantha, um robô com um ‘modo familiar’, para que possa passar um tempo com as crianças assim que papai tiver terminado o que tinha de fazer.

Alinhadas num bordel de bonecas sexuais

FS: Uma pesquisa recente descobriu que 40% dos entrevistados do sexo masculino considerariam comprar uma boneca masturbatória nos próximos cinco anos. O que isso mostra sobre a visão deles sobre as mulheres?

YA: Há um documentário da BBC sobre Sergi Santos e sua esposa Maritza. Eu recomendo porque a maneira como Sergi trata a esposa exemplifica a atitude que os homens que desejam essas bonecas têm em relação às mulheres: ‘Você poderia limpar isso para mim, por favor? Lembre-se de colocar esse sensor de volta onde você o encontrou, por favor. Maritza faz isso, Maritza faz aquilo!’ Há uma sensação genuína de que Maritza ficaria perfeitamente feliz em ser substituída pelos robôs que monta para o marido (que supostamente se masturba neles algumas vezes por dia) apenas para ter um pouco de paz.

Um usuário on-line de um fórum de robôs masturbatórios admite que, se esses robôs também fossem capazes de limpar e fazer sanduíches, ele nunca mais teria um relacionamento com uma mulher.

Para esses homens, as mulheres são concebidas como instrumentos: estamos aqui apenas para preencher um número limitado de funções para os homens, envolvendo principalmente servir e gemer.

Como chamamos algo cujo único objetivo é cumprir um conjunto de funções precisas? Um objeto. A definição no dicionário Larousse é clara:

‘Objeto: coisa sólida considerada como um todo, fabricada pelo homem e destinada a um determinado uso’.

Os robôs masturbatórios desejáveis ​​seriam concebíveis se você já não visse metade da população mundial como objeto de gratificação?

Homens podem ter relações sexuais com mulheres. Mulheres são objetos. Portanto, por extensão, os homens podem “fazer sexo” com um objeto. Quase se pode ouvir a linha antiga de The Big Lebowski.

“Sr. Treehorn trata objetos como mulheres, cara!”

Enquanto a piada está na inversão de mulheres e objetos, na verdade, ela frisa. Mulher = objeto e objeto = mulher.

E com a reificação vem a intercambiabilidade. Enquanto as tarefas desejadas forem cumpridas, não importa quem ou o que as cumpra. Uma mulher é tão boa quanto qualquer outra e uma boneca é tão boa quanto uma mulher.

FS: Existem, como você mencionou, bonecas infantis para pedófilos. Alguns legitimam a existência desses bonecos (e bordéis de bonecos) dizendo que protegem as mulheres do estupro e as crianças das agressões sexuais de pedófilos. Isso é credível?

YA: Não só não é credível, é totalmente absurdo.

‘Maritza, você se importaria de preparar dez bonecas para a próxima semana, por favor? Sim, é para um amigo de Jimmy Savile que diz que quer relembrar os bons velhos tempos.’

Há homens que estupram mulheres e meninas com impunidade. Realmente achamos que podemos impedi-los, permitindo que eles continuem fazendo isso com bonecas? É como dizer que precisamos aumentar a agressão para reduzi-la!

Essa ideia é uma reinvenção do bode expiatório — um animal ou pessoa que é sacrificada para preservar a maioria. É exatamente o que fazemos com algumas mulheres.

‘Então, você foi abusada sexualmente no passado e está passando por dificuldades financeiras? Bem, isso é horrível, querida, mas, por sorte, ainda temos alguns cargos disponíveis como amortecedor para a violência masculina! Não querida, você não precisa de experiência, tudo bem. É apenas um estupro rápido e inofensivo, digamos, dez vezes por dia, em troca do qual você terá dinheiro suficiente para comprar um acordo de refeição da Tesco e talvez uma garrafa de vinho espumante no final da semana, se você for boa. E se você tiver sorte, poderá até ter a chance de modelar! Bem, modelagem de manequim em uma vitrine … Não é bacana? Fab, você pode começar hoje!’

Fomos incomodadas por um tempo com a alegação absurda de que a prostituição reduz a violência masculina, esquecendo que prostituição é violência per se. Agora, sugere-se que as bonecas possam cumprir essa função.

Mas é apenas porque a violência masculina é tão difundida que essas bonecas existem e, como seus produtores lucram com essa violência, é de seu interesse mantê-la dessa maneira.

Você não pode pôr um fim a uma prática facilitando a mesma prática. Não podemos parar o estupro treinando homens para estuprar. Quando um professor tem meninas de plástico em casa, ele não quer parar de molestar seus alunos; muito pelo contrário, seu desejo será normalizado. Ele vai se acostumar com isso. E lembre-se de que estamos falando de um sistema que alimenta a confusão dos limites entre mulheres/meninas e objetos…

Devemos nos perguntar antes de tirar conclusões. Se a violência masculina não existisse, essas bonecas seriam produzidas? Podemos acabar com a violência se partirmos do princípio de que ela sempre existirá? Como podemos nos sentir à vontade com a ideia de que os pedófilos estão se preparando para um ataque usando bonecos que lhes foram dados?

FS: Você diz que a indústria de bordéis de bonecas é uma extensão da prostituição, pode explicar melhor?

YA: A questão dos bordéis de bonecas está obviamente intimamente ligada à violência masculina. Esses bordéis surgiram em Paris, Barcelona, ​​Alemanha — é claro — e Toronto… Por que houve esses investimentos? Porque a demanda masculina está lá. Os homens estão prontos para gastar até £100 para se masturbar dentro desses bonecos. Não é mais possível falar sobre a ‘escolha’ feita por essas bonecas da maneira como se fala sobre a ‘escolha’ feita pelas mulheres na prostituição. A mentira está visível para todos.

Não devemos ver o mercado de bonecas e o mercado de mulheres e meninas como entidades separadas. Existe apenas um mercado, e as bonecas são um segmento dele.

A lógica — possuir para subjugar — é a mesma. A demanda é a mesma. A localização é a mesma. Nos bordéis de Barcelona, ​​por exemplo, existem bonecas e mulheres, obscurecendo ainda mais a fronteira.

Além disso, o consumo pornográfico de bonecas masturbatórias está aumentando. A aparência das bonecas é inspirada nas imagens disponibilizadas na prostituição filmada — pornografia — e elas são construídas através de moldes feitos por mulheres que já estão na indústria da prostituição. Em outras palavras, sem prostituição, bordéis de boneca não seriam possíveis.

Essas bonecas não acabarão com o estupro, nem sua forma paga, a prostituição, como dizem alguns que, com suas boas intenções, pavimentam uma estrada para o inferno. Pelo contrário, eu preveria que a demanda por mulheres prostitutas e bonecas aumentará nos próximos anos, que homens que demandam bonecas também exigirão mulheres e vice-versa.

FS: Você menciona o mito de Pigmalião ao falar sobre essas bonecas: o homem, insatisfeito com a mulher real, se apresenta como “um todo poderoso criador divino” e cria uma mulher artificial que melhor atende às suas necessidades. Por que mulheres reais não atendem às necessidades dos homens, como as bonecas o fazem?

YA: É interessante que você diga mulheres “reais”. Essa distinção entre mulher real e falsa vem de uma visão masculina misógina das mulheres. Acho que os criadores masculinos vão corrigi-la, dizendo que as mulheres “reais” são as que elas criam (observe a definição do objeto que mencionei anteriormente: “coisa… feita pelos homens”). As outras, aqueles que se afastam de sua vontade, são defeituosas, falsas. Essa atitude pode ser sentida mesmo diariamente, quando os homens negam a mulheridade às mulheres que não consideram femininas: ‘Meninas na engenharia não são mulheres de verdade…’

Como criadores, eles podem julgar a qualidade da mercadoria. As três principais religiões monoteístas têm “criadores” e profetas masculinos. E se Deus fez o homem à sua própria imagem, o homem também é a imagem de Deus. [3] Portanto, o homem é o criador, a mulher, a sua criação — uma inversão da realidade comum a todos esses mitos.

Por fim, o advento contemporâneo das bonecas masturbatórias é o auge da negação biológica dos homens da capacidade exclusiva das mulheres de gerar filhos. É a inveja do útero no seu auge.

O fato é que não existem mulheres ‘falsas’ mais do que existem mulheres ‘reais’. Existem mulheres e, em seguida, uma idealização misógina de ‘mulher’ espalhada pela religião e pela indústria da prostituição — isso quando as duas não se sobrepõem! — cujos representantes disputam o domínio na ordem mundial patriarcal. Os aspirantes a Pigmalião simplesmente não suportam a ideia de mulheres viverem fora do seu ideal — um ideal que existe apenas para eles.

É possível interpretar o advento das bonecas masturbatórias como a décima segunda reação contra o feminismo: como a onda #MeToo recupera o que tem sido o território dos homens predadores, pois as mulheres estão falando sobre os limites que devemos estabelecer contra os homens, existe um interesse midiático nessas bonecas.

Bonecas que aceitam tudo, que afirmam (graças às palavras pré-programadas, entre outras coisas, que os homens colocaram na boca delas) “viver” apenas para esses homens e nunca lhes dirão o quão ruim eles são na cama. Elas nunca decepcionarão os homens e os homens podem e as penetrarão a qualquer momento. Elas não têm existência própria nem pernas para fugir (novamente, adequadamente, essas bonecas não são capazes de “caminhar”).

Essas bonecas preenchem o vazio infinito do ego masculino, uma tarefa que não pode ser pedida a um companheiro humano, nem mesmo àquele que mais nos ama, principalmente se a vê como uma igual. Paradoxalmente, porém, ao tentar subjugar o Outro em um grau tão extremo, o subjugador acaba talvez mais dependente daquele Outro que o Outro depende do subjugador, pois toda a existência do subjugador se torna impossível sem o Outro.


Notas de Rodapé

[1] As ideias sobre dissociaçõs foram despontadas pelas reflexões de Kajsa Ekis Ekman no seu livro “Being and Being Bought”.

[2] Todas as informações relatadas sobre Xaviel Niel e seus sócios e Pierre Bergé podem ser verificadas nos seguintes artigos (em francês):

[3] Ver a obra de Mary Daly sobre Misoginia e Religião.