feminismo
Idealismo dialético mascarado de materialismo dialético.

Tradução de Ariana Amara da 1ª parte do texto de Zachary George Najarian-Najafi

A esquerda Marxista se encontra atualmente em um confronto com três grandes mentiras insidiosas que ameaçam as fundações revolucionárias emancipatórias do projeto Marxista, todas elas relacionadas com a negligência à libertação das mulheres; são elas

1. Mulheres Trans são mulheres.

2. Prostituição é trabalho.

3. Feminismo é burguês.

A misoginia, em suas diversas formas, tem sido um desafio para a esquerda; não apenas a misogonia da direita reacionaria, mas também a misoginia vinda da própria esquerda. Mas foi apenas recentemente que parte da esquerda misógina resolveu se reclassificar de naturalmente progressista. Por meio de um revisionismo abertamente descarado, os elementos reacionários dentro da esquerda conseguiram se alavancar como agentes do progresso. Muito já foi escrito sobre os danos causados por essas três mentiras, mas nenhum esforço foi feito ainda para desbancar essas ideias sob uma perspectiva Marxista sólida. Este é o objetivo deste artigo; demonstrar definitivamente que essas grandes mentiras não são apenas retrógradas, mas inerentemente revisionistas e anti-Marxistas em seu âmago.

A primeira dessas três grandes mentiras, “Mulheres Trans são mulheres”, pode ser talvez a mais prejudicial, porque ela contradiz o centro do método Marxista: o materialismo dialético. Existem duas principais definições usadas pelos proponentes da transgeneridade para explicar sua narrativa. A primeira diz que gênero se trata de uma identidade; o estado de ser um homem ou uma mulher (ou qualquer uma das inúmeras “identidades de gênero”) não vem do sexo biológico (até aí, transativistas reconhecem a existência do sexo biológico), mas de uma identidade interna, i.e. sentimentos pessoais, consciência própria. A segunda definição diz que pessoas trans na verdade não são do sexo que eles têm, mas do sexo que eles dizem que tem, porque na verdade, essas pessoas têm um cérebro “feminino” ou “masculino”. Ambas as definições são baseadas no pessoal, não no material. Uma das patronas da teoria queer, Judith Butler, diz:

“Uma coisa é dizer que gênero é performado e é uma coisa um pouco diferente dizer que gênero é performativo. Quando dizemos que gênero é performado, nós geralmente queremos dizer que nós assumimos um papel e que estamos agindo de uma forma e que nossa ação ou nossa performance é crucial ao gênero que nós somos e ao gênero que nós apresentamos ao mundo. Dizer que gênero é performativo é um pouco diferente porque para algo ser performativo significa que produz uma série de efeitos. Nós agimos, andamos, falamos, dizemos de formas que consolidam as impressões de sermos um homem ou uma mulher.”[1]

Apesar da teoria queer ser uma filosofia pós-moderna, suas raízes vão mais profundamente do que apenas o pós-modernismo; na verdade, esse trecho de Butler é um exemplo do idealismo dialético. Marxismo, enquanto uma filosofia, foi consolidado como uma reação ao idealismo dialético dos Jovens Hegelianos. O idealismo dialético afirma que a realidade flui a partir da consciência. Marx, de outro lado, argumentou que “Não é a consciência do homem que determina a existência, mas a sua existência social que determina sua consciência.”[2] O que significa que não são nossos pensamentos que moldam a realidade material, mas a realidade material que molda nossos pensamentos. De fato, o primeiro grande trabalho de Marx, A Ideologia Alemã, é exclusivamente dedicado a explicar esse conceito.

Então qual é a definição materialista de gênero? E como a inclusão das definições idealistas sob o disfarce de marxismo prejudica o objetivo Marxista de libertação das mulheres? O texto marxista fundamental que lida com a opressão das mulheres é a obra de Engels, “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” . De acordo com Engels, enquanto sempre houve uma divisão sexual do trabalho na sociedade humana, não foi até a ascensão da propriedade privada que essa divisão se tornou hierárquica. Antes da ascensão da propriedade privada, a sociedade era organizada sob o que era chamado “o direito materno”, i.e. a a árvore genealógica de uma família era traçada a partir da mãe, dada a dificuldade de se identificar com exatidão a paternidade nas sociedades comunitárias primitivas. Mas porque a propriedade privada cresceu do trabalho masculino, e se concentrou em mãos masculinas, o “direito materno” deu lugar ao “direito paterno”. E para garantir que seu legado seria passado para seu herdeiro, o pai precisava saber com certeza quem seus filhos eram. Isso significava controlar o trabalho reprodutivo do sexo feminino, e sua subordinação à supremacia masculina; surgindo aí, o advento do patriarcado. No capítulo II de Origens da Família, Engels chama a tomada do direito materno de “…a histórica derrota mundial do sexo feminino. O homem tomou o controle dentro de casa também; a mulher foi degradada e reduzida a servidão, ela se tornou uma escrava da luxúria do homem e um mero instrumento da produção de crianças.”[3] Note que aqui, Engels está tratando de sexo, de biologia. Mulheres não são oprimidas por conta de uma identidade de gênero abstrata, mas por conta do seu sexo. A sociedade de classes e o patriarcado, ambos existem em simbiose, e precisam controlar o trabalho reprodutivo das mulheres para se sustentar. Para falar sem rodeios, eles precisam controlar os meios de reprodução. Portanto, a opressão feminina possui sua origem uma realidade material.

Mas nós ainda não lidamos com o conceitos de gênero. No discurso atual, dominado pela teoria queer, sexo e gênero tem sido usados em confusão a ponto de terem se tornado quase sinônimos um do outro. A análise de Engels sobre o patriarcado é de várias formas incompleta, mas ela formou a base para as futuras explorações materialistas sobre sexo e gênero. As feministas da segunda onda desenvolveram boa parte do pensamento sobre gênero não revisitaram esses conceitos fundamentais, mas os expandiram, o oposto que os revisionistas de hoje estão fazendo. Gênero, de acordo com a feminista radical Rebecca Reilly-Cooper, é o “sistema de valor que determina e proíbe formas de comportamento e aparência para membros das diferentes classes sexuais, e atribui valor superior a uma classe sexual em detrimento da outra”[4] Gênero não é, portanto, a mesma coisa que sexo biológico, mas uma forma de parasita trapaceador acima do sexo biológico para manter a atual hierarquia sexual, e garantir o contínuo controle masculino sobre o trabalho reprodutivo. Pessoas não conformistas com os padrões de gênero, assim como os homossexuais, homens e mulheres, são portanto “exilados” de sua comunidade de gênero, não por conta de alguma identidade abstrata, mas porque eles não satisfazem as funções determinadas aos membros de suas classes sexuais; eles são essencialmente traidores da classe. Pessoas intersexo, que formam uma categoria material distinta, são também empurradas a essa categoria de “exilados” porque eles também são incapazes de satisfazer os objetivos da hierarquia sexual patriarcal. Tais comunidades de exilados existiram ao longo da história, e continuam a existir até hoje em toda parte do mundo, nas hijra da Índia, passando pelas pessoas de dois-espíritos das tribos nativas das Américas, até ao contemporâneo silenciamento e violência direcionado às pessoas não-conformistas de gênero. Mas para reiterar, nada disso tem a ver com identidade, mas com as estruturas materiais da sociedade de classes.

Enquanto transativistas começaram a se virar contra as explicações biomédicas para a transgeneridade, elas continuam vivas e na comunidade médica e psicológica. As teorias vitorianas sobre “sexo do cérebro”, que teriam causado a ira de Marx e Engels, estão agora fazendo um retorno. Na melhor das hipóteses, essas teorias são uma pseudociência quimérica que não chegaram nem ao menos próximas a serem conclusivamente provadas em nenhum estudo científico legítimo. Os padrões nos quais a disforia de gênero é diagnosticada recaem em construtos da masculinidade e feminilidade já discutidos. Tais teorias se arriscam a interpretar erroneamente os papéis do gênero como sendo baseados na natureza, em oposição a uma construção que reforça o controle da classe dominante. Ao invés de ser visto como uma doença, a disforia deveria ser vista como um sintoma de uma hierarquia sexual. As pressões da socialização engendrada são ubíquas, e começam no nascimento. Muitas vezes, não estamos conscientes das formas sutis que a socialização exerce sobre nós. Para as pessoas que rejeitam essa socialização, o que segue é uma experiência com níveis extremos de desconforto e angústia. A socialização engendrada não é apenas um fenômeno abstrato, mas é, de novo, literalmente cultivado em nós. Sob esse sistema de socialização, o pênis se torna mais do que o órgão sexual masculino, mas o símbolo da agressão masculina e supremacia, da mesma maneira que a vagina se torna um símbolo da inferioridade feminina e subjugação. Indivíduos sensíveis que se debatem contra essa socialização geralmente odeiam seus corpos, mas não porque seus corpos são de alguma maneira “errados”, mas pelo que eles são levados a acreditar que os seus corpos significam. O que eles sofrem é com a incapacidade de quebrar a parede que foi erguida na frente da realidade material e ver a realidade de uma forma objetiva. Os campos da ciência da medicina e da psicologia não estão imunes da influência da classe dominante. Esse é especialmente o caso no campo da psicologia, onde o método de análise é aplicado para isolar o paciente da sociedade ao seu redor, preferindo ver um sofrimento interno como o resultado de algum defeito, em oposição ao resultado material e social de forças exercidas sobre o indivíduo.

Enquanto o capitalismo desmantelou certos elementos do patriarcado, e permitiu às mulheres conseguirem alguns ganhos, ele não desmantelou o patriarcado completamente. O capitalismo, enquanto um sistema de classes, ainda necessita manter os meios de reprodução. Por exemplo, leis que restrinjam o acesso ao aborto e a contraceptivos, mesmo tendo um efeito negativo para todas as mulheres, têm um impacto mais devastador na vida de mulheres pobres e das classes trabalhadoras. Essas leis podem estar encobertas por terminologias de moralismo, mas têm uma lógica bem mais básica; elas garantem a produção contínua de futuros proletariados para o benefício da máquina capitalista.

Ao distanciar a definição de “mulher” de uma versão materialista para uma versão idealista, nós perdemos a capacidade de definir e lutar contra as causas da opressão das mulheres. Em sua forma mais extrema, ela apaga as mulheres enquanto classe, e torna impossível falar sobre o patriarcado enquanto uma força existente. Por que então, estão os Marxistas, que supostamente deveriam usar do materialismo dialético, apoiando um conjunto de ideias que são o exato oposto do materialismo dialético? Para responder essa pergunta, precisamos observar a natureza do patriarcado; ele é um sistema que antecede o capitalismo. Como já foi dito acima, o patriarcado e o sistema de classes existem em simbiose entre si. Um não pode ser eliminado sem que o outro também seja. Derrubar o capitalismo não é o mesmo que derrubar o sistema de classes. Como Mao apontou, a dinâmica de classes ainda existe nas sociedades socialistas, e requerem uma vigilância contínua e combate por parte dos revolucionários. É por isso que muitos estados socialistas ainda restringem os direitos das mulheres em alguns níveis, como por exemplo, as leis draconianas anti-aborto da Romênia de Ceausescu. Todos os homens se beneficiam de alguma forma do patriarcado, até os homens das sociedades socialistas. Portanto, segue-se que homens socialistas lutando contra o capitalismo também se beneficiam do patriarcado. Enquanto homens e mulheres possam estar em solidariedade enquanto trabalhadores, homens trabalhadores ainda pertencem a classe sexual masculina, uma classe que é anterior à existência da classe trabalhadora moderna.

E a obediência a classe pertencente é profunda. É por isso que tantos homens socialistas e “feministas” defendem tão rapidamente e até apoiam a linguagem e ações violentas praticadas por alguns homens não-conformistas de gênero contra a classe de mulheres, independente de como esses homens não-conformistas se identificam. Isso não nega a discriminação sofrida por homens não-conformistas, e a violência e abuso que eles enfrentam, mas até como exilados da classe sexual masculina, eles ainda se beneficiam de alguns dos privilégios concedidos a membros de sua classe sexual. Note que eu não uso o termo privilégio da maneira em que é comumente usado pela esquerda retrógrada, i.e. como alguma noção abstrata que precisa ser “checada”. Ao invés, é na verdade uma força existente que precisa ser combatida, assim como revolucionários brancos devem ativamente combater a supremacia branca, e revolucionários do mundo desenvolvido devem ativamente combater o imperialismo de “seus” estados.

Oportunismo e o “medo” de estar “do lado errado da história” são também levando forças a abraçarem esse revisionismo. A esquerda Anglofônica, especialmente nos Estados Unidos, dada sua fraqueza na arena política geral, há muito vem lutado para ser vista como “aceitável” e “educada”, e está geralmente muito disposta a pular em qualquer comício que a ajude a avançar nessa ideia. Esse desejo de ser aceita também carrega o medo. É verdade que comunistas cometeram sérios erros julgando o passado, mas essa não é uma desculpa para se rebelar contra as filosofias centrais e abraçar cegamente ideias e movimentos sem analisar friamente seus conceitos e objetivos. Isso não é o mesmo que dizer que comunistas não deveriam estar na linha de frente da defesa dos indivíduos não-conformistas de gênero. Uma revolução socialista completa requer que essas estruturas opressivas sejam deixadas de lado. Mas é possível defender as pessoas não-conformistas de gênero sem apoiar um revisionismo de pseudociência claramente misógino.

Mulheres não são apenas oprimidas, como completamente exploradas. Mulheres da classe trabalhadora consistem na possível classe mais explorada da sociedade humana. Ao apoiar filosofias que não apenas apagam a habilidade das mulheres de definir e explicar as bases de sua exploração, mas também nega a agência às mulheres de se organizarem enquanto classe revolucionária, esses “Marxistas” provaram que estão em direta contradição com as ideias e a filosofia marxista. Eles estão apoiando um revisionismo.

Na próxima parte, examinaremos a segunda grande mentira que adoece a esquerda atualmente, a noção de que a “prostituição é um trabalho como outro qualquer”.


[1] “Judith Butler: Your Behavior Creates Your Gender.” YouTube. Big Think, 06 June 2011. Web. 29 June 2017.

[2] Marx, Karl. “Economic Manuscripts: Preface to A Contribution to the Critique of Political Economy.” Marxists Internet Archive. Progress Publishers, n.d. Web. 29 June 2017.

[3] Engels, Frederick. “Origins of the Family — Chapter 2 (III).” Marxists Internet Archive. N.p., n.d. Web. 29 June 2017.

[4] Reilly-Cooper, Rebecca. “Gender.” Sex and Gender. N.p., 06 Sept. 2015. Web. 29 June 2017. Emphases present in original text.

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