feminismo

Tradução de Ariana Amara da 3ª parte do texto de Zachary George Najarian-Najafi

O Feminismo se tornou a marca da discórdia para muitos na esquerda atual. Se tornou aceitável para muitos comunistas auto-proclamados denunciar o feminismo tanto como burguês, quanto uma forma de política de identidade, ou ambos. Muitas dessas afirmações se baseiam em uma leitura errônea deliberada dos gigantes do feminismo Marxista, assim como um argumento semântico superficial. E nenhuma vertente do feminismo é mais intensamente perseguida e vilipendiada pela esquerda “consciente” do que o feminismo radical, que é denunciado nas afirmações acima das formas mais viciadas e ridículas. A realidade é que o feminismo não é apenas compatível com o Marxismo, como é indispensável ao Marxismo. Sem a libertação das mulheres, não há uma revolução socialista bem sucedida. Lenin fez a afirmação famosa de que “Não pode haver, nem vai nunca haver uma verdadeira ‘liberdade’ enquanto não houver liberdade para as mulheres dos privilégios que a lei garante aos homens, enquanto não houver liberdade para os trabalhadores do jugo do capital, e liberdade para os camponeses do jugo dos capitalistas, proprietários e merchands.”[1] Mas para os reducionistas de classe que adoram o altar do classismo, esse ponto de vista entra por um ouvido e sai por outro. Enquanto as duas primeiras partes dessa série foram mais focadas em teoria, esse capítulo final é mais polêmico que teórico, e se propõe a reafirmar como o feminismo é indispensável ao projeto socialista revolucionário.

A afirmação de que o feminismo é burguês foi popularizada pela Liga Comunista Internacional, mais conhecida popularmente como Liga Espartana, famosa por sua defesa “revolucionária” do diretor estuprador Roman Polanski, e do clube de sexo NAMBLA.[2] O igualmente nocivo Partido Socialista da Igualdade, também conhecido por sua defesa a estupradores e também por sua fama de informantes contra os “Espiões Stalinistas”, denunciam similarmente o feminismo como burguês. Ambas organizações afirmam que eles apoiam não o feminismo, mas a “libertação das mulheres”. Enquanto esses dois setores não são influentes nem entre si, nem na esquerda como um todo, seu sentimento anti-feminista, e discurso pró-”libertação das mulheres” foi adotado por muitos auto-proclamados esquerdistas, em sua maioria homens. Para justificar suas posições, eles citam a obra de Alexandra Kollontai, A Base Social das Questões das mulheres, mas esses argumentos esquecem que Kollontai não denunciou o feminismo em geral, mas o feminismo burguês. Kollontai, junto com suas contemporâneas Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin, lutou pela radicalização e evolução do feminismo; assim como o comunismo representou a culminação do radicalismo esclarecido, elas procuraram criar um feminismo que iria representar as questões ideológicas da luta pela libertação das mulheres, e funcionar como um guia de ações para mulheres trabalhadoras. O que essas mulheres revolucionárias tornaram reconhecível foi que, enquanto há questões que unem todas as mulheres, o colaboracionismo de classe iria ferir de ultimátum a causa feminista, ao invés de fazê-la avançar, porque as feministas burguesas iriam se aliar com seus companheiros de classe econômica. Essa visão é bem diferente da denúncia totalitarista do feminismo enquanto ideologia. Todo esse discurso de “libertação das mulheres e não feminismo” é apenas uma ofuscação semântica; o que ele realmente faz é distrair do desconforto muitos homens de esquerda sentem ao tratar de um movimento revolucionário exclusivamente de mulheres. Essas mulheres revolucionárias não teorizaram, se organizaram e agitaram a cena política para fazer os homens se sentirem confortáveis, mas para libertar o proletariado internacional, especialmente as mulheres trabalhadoras do mundo.

A outra acusação de que o feminismo é uma forma de política identitária é outro exemplo de semântica desonesta e ofuscação ideológica. Como foi discutido na primeira parte dessa série, mulher não é uma identidade, mas uma realidade material de um ser humano. Em A Origem da Família, Propriedade Privada e Estado, Engels explicou como o advento da propriedade privada e sua concentração em mãos masculinas, levou à dominação das mulheres pelos homens com o propósito de explorar o trabalho reprodutivo para que a propriedade pudesse ser transferida de pai para filho. O patriarcado e a sociedade de classes existem em simbiose entre si, um sendo dependente do outro. E o capitalismo, apesar de permitir que mulheres consigam alguns ganhos, ainda precisa manter o controle do trabalho reprodutivo das mulheres para garantir a continuação da classe proletária. O patriarcado também serve à função de dar ao homem das classes proletárias um “escape” para sua agressão; ao invés de direcionar sua raiva contra um sistema que os explora, os homens são encorajados a direcionar essa raiva às mulheres. Mas, de novo, isso não acontece porque mulheres são uma “identidade”. Uma boa parte dessa raiva direcionada às mulheres é exploração sexual; prostituição, pornografia e escravidão sexual. (Veja a parte 2 para uma explicação mais detalhada da exploração sexual de mulheres pelo patriarcado e capitalismo.) A biologia feminina, o estado de ser mulher e ter um corpo feminino é inseparável da opressão e exploração. Thomas Sankara falou dessa dupla opressão das mulheres:

“O destino de uma mulher é fadado assim como o destino de um homem explorado. Entretanto, essa solidariedade não pode nos cegar perante às situações específicas enfrentadas pelas mulheres na nossa sociedade. É verdade que mulheres e homens trabalhadores são explorados economicamente, mas a esposa trabalhadora é também condenada ao silêncio pelo seu marido trabalhador. Esse é o mesmo método usado por homens para dominar outros homens! Uma ideia foi criada de que alguns homens, por virtude de sua origem familiar e nascimento, ou por ‘direitos divinos’, são superiores aos outros.”[3]

Nascer mulher é um sentença que na melhor das hipóteses te torna um cidadão de segunda classe, e na pior, te condena a uma vida cheia das piores formas de escravidão e exploração. Mulheres formam em conjunto não uma classe, mas uma casta; É possível uma pessoa mudar da classe a qual pertence, mas a casta é algo que alguém nasce e nunca escapa. O Feminismo tem o objetivo de emancipar a casta feminina; não é o mesmo que um movimento identitário abstrato. Nós devemos nos perguntar se essas pessoas que denunciam o feminismo como um política identitária falam o mesmo da libertação negra ou outros movimentos de libertação nacional. Certamente alguns falarão, mas suspeitamos que esses façam parte de uma minoria. Se pode ser considerado algo, o culto pelo “trabalhador ideal” praticado pela esquerda reducionista de classe é um exemplo verdadeiro de política identitária, a forma como se fetichiza e eleva um arquétipo de trabalhador industrial como sendo o símbolo da classe trabalhadora. Esse tipo de reducionismo bruto de classe representa um perigo para a esquerda que o feminismo jamais foi, mesmo quando o feminismo foi usado de exemplo para “políticas de identidade”. De novo, essas denúncias servem mais para apaziguar o desconforto da esquerda masculina do que qualquer outra coisa. Homens das classes trabalhadoras e homens da esquerda ainda são homens, e ao menos que eles combatam ativamente a socialização patriarcal e capitalista, eles estarão dando mais apoio ao status quo do que à revolução. Se a solidariedade com as mulheres das classes trabalhadoras não pode persuadi-los a apoiar o feminismo, então talvez eles deverão apoia-lo em último caso, se estiver dentro de seus próprios interesses. Assim como o trabalhador branco racista que se considera superior ao seu camarada negro, o capitalismo não hesitará em sacrificar o trabalhador homem chauvinista na pira da acumulação e do lucro.

A esquerda anti-feminista atingiu seu ápice nos últimos anos com seus ataques fervorosos ao feminismo radical e às feministas radicais. Todo a argumentação crassa direcionada ao feminismo é também estendida ao pensamento feminista radical, mas o linchamento público tem tomado novas proporções de maldade. Existem também outras acusações reservadas apenas para atacar o feminismo radical além das usuais; que o feminismo radical é elitista, supremacista branco, “transfóbico”, moralista, “putafóbico”, e até fascista! Novamente, esse argumentos demonstram um nível chocante de ignorância quando o assunto é história e teoria. Assim como as feministas marxistas do começo do século XX, o feminismo radical surgiu não como um movimento anti-esquerda, mas como um movimento que expandia a esquerda ao seu potencial teórico e revolucionário máximo. Carol Hanisch, a feminista radical que, entre outras coisas, cunhou a frase “o pessoal é político” e organizou o protesto ao Miss America 1968, disse em um discurso que o movimento feminista radical que ela ajudou a criar e a desenvolver foi inspirado por Mao e a Revolução Cultural. No mesmo discurso, ela diz:

“Para mim, a Revolução Cultural parece uma continuação da Revolução: um meio de aprofundá-la para que a revolução não caia nas mãos da burocracia e da complacência que se estabelecem assim que o poder é tomado militarmente e um novo grupo de pessoas — incluindo oportunistas dentro do próprio movimento revolucionário — têm a chance de criar um novo status quo. É a continuação de um processo do qual as massas de trabalhadores, incluindo as mulheres e as minorias, tomam o total poder político e econômico. É o próximo passo para se atingir o verdadeiro comunismo; que é uma sociedade completamente isenta de classes, incluindo as classes sexuais e raciais. Nós considerávamos o sexismo e o racismo mais do que apenas uma tradição de comportamento ou um hábito ruim ou ignorante. Sendo materialistas (no sentido Marxista) nós nos perguntávamos, ‘Quem se beneficia?’”[4]

Outras feministas radicais como Shulamith Firestone e Andrea Dworkin aplicaram o materialismo dialético exclusivamente para entender a opressão e exploração encarada pelas mulheres. Ao invés de ceder ao “determinismo biológico”, ou ao “fascismo sexual”, suas críticas afirmavam, e ainda afirmam, que foram construídas com base no trabalho de Engels, Kollontai e outros, e aprofundado a partir deles; a análise das feministas radicais fez com o patriarcado o que Marx fez com o capitalismo. Nós devemos muito do novo entendimento sobre sociedades humanas pré-patriarcais e a história “perdida” das mulheres à análise e pesquisa diligente dessas mulheres. A frustração das feministas radicais com boa parte da esquerda não foi e não deve ser considerada como uma forma de sentimento anti-esquerda, mas entendida pelo que realmente é, uma frustração bastante enraizada com o chauvinismo e senso de direito exibido pelos homens da esquerda, assim como a dominação dos grupos de esquerda por esses homens e a maneira como as mulheres desses grupos foram constantemente silenciadas e abusadas (algo que ainda acontece hoje, como mostram os “escândalos” de estupro dentro do Partido dos Trabalhadores Socialistas do Reino Unido, e dentro da seção Australiana do Comitê Internacional dos Trabalhadores). E assim como Marx é sujeito a ataques ridículos de pessoas que nunca leram sua obra, a mesma coisa acontece com as feministas radicais (a afirmação errônea de que Dworkin disse que “todo sexo é estupro” é uma das distorções mais populares). Tirando que as feministas radicais não são atacadas apenas pela direita, da forma que é Marx, mas também pela esquerda. O que isso realmente mostra é que quanto mais direto seja um ataque a uma estrutura de poder existente, mais amplamente insano e selvagem será o contra-ataque.

No fim das contas, a “esquerda” anti-feminista simplesmente trai uma completa falta de entendimento de ambas teorias socialistas revolucionárias e suas práticas. Todo socialista revolucionário reconhece que para a revolução ter sucesso, as mulheres precisam estar mobilizadas em massa; mesmo depois que a república socialista for estabelecida, essa mobilização deve continuar e se aprofundar para que socialismo crie raízes e floresça. Mulheres são mais do que decoração para a revolução socialista, elas devem ser participantes ativas em todo aspecto da construção da sociedade socialista. Mao e Castro foram especialmente astutos em reconhecer esse fato: tanto na China (pelo menos até a era de Deng Xiaoping) e Cuba foram proponentes ativos da libertação das mulheres em todas as esferas da sociedade. Marx disse ele próprio, “Qualquer pessoa que saiba o mínimo de história sabe que grandes mudanças sociais são impossíveis sem o fermentos das mulheres. O progresso social pode ser medido precisamente pela posição social do sexo justo…”[5] Essa afirmação pode e deve ser aplicada para organizações socialistas; os grupos socialistas mais ativos são aqueles em que as mulheres não só são membras ativas em todos os níveis, mas contribuidoras em igualdade e valorizadas para o desenvolvimento da organização e de sua prática. Esses “socialistas” que desprezam, diminuem ou desqualificam o feminismo, o fazem com sua própria conta em risco.


[1] Lenin, VI. “Soviet Power and the Status of Women.” Marxist Internet Archive. Marxist Internet Archive, 2002. Web. 06 July 2017.

[2] “Feminism vs. Marxism: Origins of the Conflict.” International Communist League (Fourth International). Women and Revolution, 10 June 2011. Web. 06 July 2017. The “Spart’s” key anti-feminist manifesto.

[3] Sankara, Thomas. “7 Thomas Sankara Quotes about Women.” MsAfropolitan. N.p., 25 Nov. 2011. Web. 06 July 2017.

[4] Hanisch, Carol. “Impact of the Chinese Cultural Revolution on the Women’s Liberation Movement.” Carolhanisch.org. Carol Hanisch, 1996. Web. 06 July 2017.

[5] Marx: Letters to Dr Kugelmann, Marxist Lib. 17 (NY, International Pub., 1934), letter of December 12, 1868, p.83.

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