O assunto do meu discurso hoje é sobre construir uma geração feminista, que será a uma geração feminista forte. É sobre as mulheres migrantes jovens que, como todas as mulheres, são vítimas de violência, porque ainda vivemos em um mundo em que os homens estão no poder; um mundo de dominação masculina.

As mulheres migrantes jovens experimentam grande pressão em seus países de origem, e elas também têm um papel fundamental na luta contra a opressão masculina.

Por essa razão, mulheres jovens frequentemente deixam seus países de origem para estudarem, ou para encontrarem um emprego, ou em busca de melhores condições de vida, para fugir do controle dos homens. Essas mulheres chegam com habilidades, capacidades e muita energia e, de repente, estão sob domínio masculino novamente. Esse é um círculo vicioso, em que homens tentam ganhar controle sobre elas, de novo e de novo.

Depois de migrar para a Europa, as mulheres enfrentarão problemas administrativos, jurídicos, sexistas e racistas, além do relativismo cultural, que é quando lhes dizem: “Esta é a sua cultura, não vamos discutir sua cultura”, com a cultura sendo uma espécie de assunto tabu.

Isso significa que essas mulheres serão ainda mais excluídas e discriminadas. Isso significa que metade de seus direitos não serão reconhecidos.

Essas mulheres estão sob pressão por parte de suas famílias, que esperam mais delas — porque são mulheres — do que dos homens. Depois de concluírem os estudos ou trabalharem no exterior por alguns anos, muitas vezes essas mulheres não podem mais voltar aos seus países de origem. Elas precisam permanecer no país anfitrião, porque não podem simplesmente retomar sua antiga vida no país de onde vieram, depois de passar vários anos no exterior.

Mulheres de todo o mundo chegam à Europa. Muitas vezes, muito rapidamente, acabam em situações difíceis e perigosas. Na França, por exemplo, muitas vezes acabam nas mãos das redes de tráfico. Essas mulheres estão procurando emprego. Elas estão, é claro, em uma situação vulnerável, de modo que se tornam vítimas nas mãos de cafetões, são controladas por homens e organizações de tráfico organizadas.

Devemos sempre ter em mente que, apesar disso, essas jovens mulheres continuam lutando por seus direitos. Elas continuam denunciando a dominação masculina. Para essas mulheres, é uma luta diária. Elas estão aqui para provar que elas têm valor e que têm um papel a desempenhar na sociedade, apesar de sofrerem violência diariamente.

Nós trabalhamos com essas mulheres todos os dias e, quando lhes perguntamos: “o que você está procurando?”, todas respondem: “tudo o que me interessa é a minha liberdade, eu quero sobreviver, sair da prostituição, eu quero ser livre”.

Outro tipo de violência que as jovens mulheres migrantes sofrem hoje — e que é muito frequente na França — é o casamento forçado. Muitas vezes, as jovens acabam se casando à força com seus primos ou outros membros masculinos de famílias extensas. Então elas acabam em uma gaiola. Elas vêm nos ver em nossa associação e, às vezes, nos dizem que nem têm direito a receber comida, a se alimentar. Se elas não aceitam tudo o que seus maridos querem fazer com elas, elas nem podem comer. É por isso que essas mulheres procuram a ajuda de associações como a nossa, para encontrar a saída e recuperar a liberdade.

Portanto, a luta dessas mulheres é sobre sobrevivência, e é sobre os direitos das mulheres e é sobre feminismo.

No entanto, essa luta tem que ser reforçada. Estamos aqui hoje para reafirmar isso. Precisamos fazer isso para combater o patriarcado, que está assumindo novas formas e se reinventando.

Precisamos retomar o controle sobre nossos corpos, nossas decisões, nossa autonomia. Precisamos ser estratégicas na maneira como fazemos e precisamos estar unidas em nossa luta contra tudo o que prejudica nossos direitos e nossa própria luta.

É por isso que estou aqui hoje e é por isso que estou falando sobre esse assunto, das jovens mulheres migrantes, para convidar todos vocês, sejam mulheres migrantes ou não.

Precisamos de uma maior solidariedade e precisamos revisitar o que nossas mães e avós fizeram. Elas também eram feministas, mesmo que não tenham se chamado assim. É por causa delas que estamos aqui hoje.

Precisamos entender a história do feminismo. Precisamos reivindicá-la. E precisamos continuar.

Não podemos desistir dessa luta. Não podemos deixar passar. Temos que reconhecer e reivindicar o feminismo, porque vemos que hoje muitas mulheres e meninas jovens não querem se ver como feministas.

Precisamos condenar qualquer tipo de violência que as mulheres sofrem por causa de seu sexo. O tipo de violência que existe apenas por uma razão, porque somos mulheres e por causa dos papéis de gênero que a sociedade nos deu, com base em nosso sexo.

Precisamos dizer com muita clareza: recusamos a discriminação baseada no sexo. Recusamos a violência de gênero. Recusamos a dominação masculina. Queremos igualdade, dignidade e liberdade.

É por isso que estou feliz em lhes dizer hoje que a Rede Europeia de Mulheres Migrantes tem pensado muito sobre essas questões. As mulheres jovens pensaram muito sobre isso.

Decidimos rever a luta que nossas mães lideraram. Decidimos revisar como transmitimos o feminismo através das gerações. Por isso, as jovens decidiram criar um Grupo Feminista Radical Jovem, dentro da Rede Europeia de Mulheres Migrantes.

Esta não é uma instituição. Este é um movimento e uma revolução. A revolução de jovens mulheres e meninas que dizem “chega de violência”.

Tenho certeza que poderão encontrá-lo em alguns meses. O movimento foi criado. Existe um grupo agora. Ainda precisamos trabalhar em questões diferentes antes de deslanchá-lo. [O grupo existe hoje e se chama radicalgirlsss, saiba mais aqui.]

O objetivo deste grupo não é simplesmente trabalhar entre nós. Queremos conhecer outras mulheres na Europa e fora dela. Queremos criar solidariedade em todo o mundo.

Por: Noura Raad, fala proferida no Fórum Feminista, organizado pelo Parlamento Europeu, em nome da Rede Europeia de Mulheres Migrantes (ENOMW). Leia o discurso original aqui.

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