Nosso cinismo não vai construir um movimento. Colaboração vai.
Nosso cinismo não vai construir um movimento. Colaboração vai.

A raiva não é o suficiente

Tenho debatido como desafiar o cinismo num momento que exige que todos nós nos apresentemos de maneira diferente.

No sábado, juntei-me a mais de um milhão de mulheres em Washington, DC, para registrar minha oposição ao novo regime. Participar da Marcha das Mulheres – a maior mobilização de um dia na história dos Estados Unidos, se você contar com protestos por satélite em todo o país – foi simbólico e desafiador.

Como muitas outras mulheres negras, eu estava em conflito por participar. O fato de um grupo de mulheres brancas ter se inspirado claramente na Marcha de 1963, em Washington, pela Jobs and Freedom, mas sem reconhecer o precedente histórico, me irritou. Lá vão elas novamente, pensei, adotando o trabalho dos negros enquanto nos apagavam.

Eu já estava cheia antes mesmo de começar. 53% das mulheres brancas que votaram nas eleições presidenciais de 2016 votaram num homem que visa mover a sociedade para trás. Agora as mulheres brancas estavam com remorsos? Onde estavam todas essas pessoas brancas enquanto nosso povo está sendo morto nas ruas, sem emprego, sem-teto, encarcerados, desinstruídos? Vocês estão comprometidas com a liberdade de todos, ou apenas de vocês mesmas?

Durante semanas, fiquei observando de escanteio. Vi debates em listas e mais listas – sobre participar ou não da marcha, a sombra nas mídias sociais direcionada à “marcha das mulheres brancas”. Não convencidas de que as mulheres brancas alguma vez lutariam pelos direitos de todas nós, muitas decidiram sentar-se invés de marchar.

No entanto, com o passar do tempo e conforme caía a ficha da realidade do novo governo Donald Trump, algo começou a me atormentar. Eu acredito que é necessário um movimento de massas para transformar o poder neste país? Eu acredito que esse movimento de massas deve ser multirracial e multiclasse? Acredito que, para construir esse movimento de massas, é necessário organizar além dos gritos? Se eu acredito em todas essas coisas, como chegamos lá e qual é o meu papel em fazer isso acontecer?

Decidi me desafiar a fazer parte de algo que não é perfeito, que não articula meus valores da maneira que eu articulo, e ainda aparecer, transparente em meu compromisso, aberta e vulnerável a pessoas que são novas no seu ativismo. Posso criticar as mulheres brancas e, ao mesmo tempo, buscar e me unir às mulheres, brancas e racializadas, que estão despertando para o fato de que todas as vidas não importam, de fato, sem que eu faça um compromisso com minha dignidade, minha segurança e política radical.

No final, juntei-me a cerca de 1 milhão de pessoas que participaram da marcha de Washington, DC e as estimadas 3 milhões que marcharam pelo mundo. Participei de centenas de manifestações, mas essa foi uma das primeiras vezes que eu não conhecia a maioria das pessoas ali.

Ensanduichada entre outros manifestantes como uma sardinha em lata, conversei com manifestantes na multidão que disseram que essa era a primeira vez que participavam de uma mobilização em massa. Vi pessoas que não estavam pela primeira vez em uma manifestação, mas pensavam que os dias de protestos pelos nossos direitos haviam terminado. Perguntei o que as trouxera até ali. Elas disseram que queriam defender a todos nós. Elas perceberam que também estavam sob ataque. Elas queriam viver em um mundo onde todos fossem valorizados, todos estivessem seguros e cuidados. Elas ficaram admiradas com o número de pessoas que estavam lá, assim como elas próprias, para se opor aos valores do governo do presidente Donald Trump. Elas queriam fazer algo além de se sentirem sem esperança.

Naquela noite, participei de uma reunião na prefeitura que atraiu mais de 700 pessoas e tinha mais de 1.100 na lista de espera. Os reunidos eram na maioria brancos, embora também houvesse pessoas racializadas. Cerca de metade da sala disse que a Marcha das Mulheres foi a primeira vez que tinham participado de uma mobilização em massa. Elas estavam dispostas a aprender como as mudanças acontecem e como poderiam estar envolvidas. E isso foi apenas o começo.

Verificando meu feed de mídia social naquela noite, li comentários e mais comentários descartando a marcha – uma experiência que foi transformadora para centenas de milhares de pessoas. Eu me perguntava o que teria acontecido se, em vez de convidar as pessoas, dissesse para as pessoas irem se foder e irem para casa. Elas voltariam? Importava se não voltassem?

A raiva desempenha um lugar importante na transformação de nossa consciência política, mas não é suficiente.

A raiva ocupa um lugar importante na transformação de nossa consciência política e deve ser valorizada como tal. A senhora branca com o chapéu-de-rosa tricotado que veio para a marcha ficou com muita raiva quando seu futuro presidente falou sobre agarrar mulheres pela boceta. Embora ela estivesse assistindo sentada até agora, decidiu que iria fazer algo a respeito. A raiva pela maneira como os Estados Unidos dependem do trabalho imigrante, mas força os imigrantes sem documentos a viver nas sombras, pode levá-los a se unir ao movimento. Os negros americanos enlouquecidos com as maneiras como esse país nos despe de nossa humanidade podem se juntar ao movimento, mesmo que não o tenham feito antes.

Concordo com Solange quando ela diz: “Eu tenho muito com que ficar brava e tenho o direito de ficar brava”. Mas essa raiva não é suficiente. É insuficiente para construir ou tomar o poder. A raiva não vai mudar o fato de que os republicanos assumiram o controle das três esferas do governo e controlam ambas as câmaras da legislatura em 32 estados. A raiva não impedirá que os vigilantes aterrorizem nossas comunidades, e a raiva não mudará uma economia que considera muitos de nós descartáveis.

Mais que uma questão moral, é uma questão prática. Podemos construir um movimento de milhões com pessoas que podem não compreender nossa ideologia negra, queer, feminista, interseccional, anticapitalista e anti-imperialista, mas sabemos que merecemos uma vida melhor e que estamos dispostos a lutar por ela e vencer?

Se houver um tempo para ativar os nossos super poderes de organização, é este. Não vou argumentar que os negros ou outras pessoas racializadas precisam parar de responsabilizar os brancos. Os brancos não vão a lugar algum, mas nós também não iremos se não começarmos a pensar e agir de forma diferente.

Centenas de milhares de pessoas estão tentando descobrir o que significa ingressar em um movimento. Se demonstrarmos que para ser parte de um movimento você deve acreditar que as pessoas não podem mudar, que a transformação não é possível, que é mais importante estar certo do que estar conectado e interdependente, não venceremos.

Se nosso movimento não leva a sério a construção de poder, estamos apenas engajados em um exercício fútil de quem pode ser o mais radical.

Este é um momento para todos nós lembrarmos quem éramos quando entramos no movimento – lembrar dos organizadores que eram pacientes conosco, que discordavam de nós e ainda assim permaneciam conectados, que sorriam conscientemente quando nosso senso de retidão nos consumia.

Eu me lembro de quem eu era antes de dar minha vida ao movimento. Alguém foi paciente comigo. Alguém viu que eu tinha algo para contribuir. Alguém ficou comigo. Alguém fez o trabalho para aumentar meu compromisso. Alguém me ensinou a ser responsável. Alguém abriu meus olhos para as causas dos problemas que enfrentamos. Alguém me pressionou a colocar minha visão no futuro. Alguém me treinou para juntar outras pessoas que procuram um movimento.

Ninguém está a salvo da transição pela qual este país está passando. Enquanto muitos de nós enfrentamos ódio, ignorância e ganância em nossas vidas diárias, o período em que entramos é diferente de tudo o que algum de nós já viu antes.

Podemos construir um movimento na casa dos milhões, através da diferença. Precisamos construir um movimento entre as classes, raça, gênero, idade, documentação, religião e deficiência. Construir um movimento requer ir além das pessoas que concordam com você. Simplificando, precisamos um do outro e precisamos de liderança e estratégia.

Podemos dizer às pessoas centenas de vezes que, porque não estiveram aqui, não têm o direito de estar aqui agora. Mas prometo que o único lugar a que isso nos levará é para lugar nenhum.


Texto: Alizia Garza, co-fundadora do movimento Black Lives Matter

Tradução: Aline Rossi | Feminismo Com Classe



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