feminismo
prostitutas

O comércio do sexo é uma exaltação da economia de livre mercado sobre o corpo da mulher. No que as organizações que defendem os direitos humanos estão pensando, quando apoiam práticas tão abomináveis?

A abordagem das organizações para os direitos humanos de descriminalização da prostituição ajuda os cafetões, não as trabalhadoras

Em março do ano passado, um informante que trabalhava para Anistia Internacional me vazou um documento que se tratava da decisão final da organização de apoiar a descriminalização completa do mercado do sexo. Essa posição — de que o apoio para cafetões e clientes toma o lugar do apoio para mulheres marginalizadas e abusadas — foi oficialmente adotada em Agosto de 2016 no Reino Unido, para a felicidade do movimento dos “profissionais do sexo”, e para o transtorno das feministas abolicionistas.

Para os inocentes, ou mal informados, a política da Anistia Internacional parece apoiar as pessoas que vendem sexo, e baseada em um desejo de acabar, ao invés de perpetuar, com as opressões. O documento contém várias comparações entre os preconceitos sofridos por lésbicas, gays, pessoas transgênero, pelas leis antiaborto, com os “direitos dos profissionais do sexo”.

“Profissionais do sexo estão em múltiplo risco de formas insterseccionais de criminalização e penalização”, diz o documento, “E profissionais do sexo, que estão em risco de criminalização em alguns países por conta de suas orientações sexuais, identidade de gênero, encontram a criminalização na lei em outros países contra o trabalho sexual, ou leis contra a relação sexual de pessoas do mesmo sexo, ou de leis que reforçam normas de gênero e de expressão, como proibições de crossdressing… Mulheres que trabalham na indústria do sexo sofrem mais com a criminalização em países em que o aborto é proibido ou sexo fora do casamento seja ilegal.”

Graças a organizações como Human Rights Watch (HRW), a Organização Mundial da Saúde (OMS), UNAIDS e a Anistia Internacional dando seu apoio aos exploradores, em oposição aos explorados, o movimento pelo “direitos dos trabalhadores do sexo” consegue se apresentar ao mundo mais como algo baseado na libertação de um grupo oprimido do que em uma verdade intragável: que tais políticas ajudam apenas cafetões e clientes, ao invés das pessoas prostituídas.

Uma abordagem genuína que prezasse pelos direitos humanos, analisaria essa questão protegendo os direitos das mulheres e homens no mercado do sexo. É isso que acontece, em países como a Suécia, França, e a Irlanda, que adotaram o modelo abolicionista (antes chamado de modelo Nórdico), em que aqueles que criam a demanda, e não as vítimas da prostituição, são criminalizados.

Um dos argumentos ridículos em favor da descriminalização, desses grupos tão chamados “defensores dos direitos humanos”, inclui que sob esse regime, a violência praticada por policiais e clientes contra as mulheres na prostituição diminuiria. Outro argumento é que a descriminalização diminuiria novos casos de HIV, porque os clientes seriam obrigados a usarem camisinhas. Descriminalizar as pessoas prostituídas é uma política que diminui a violência policial contra mulheres, não oficializar os homens que as compram e as vendem. Como eu pude observar nas minhas visitas aos bordéis legalizados em Nevada, Alemanha, Holanda e Austrália, é que é impossível de se implantar uma “lei da camisinha”. Em Nevada, por exemplo, as mulheres são obrigadas a fazerem exames de sangue semanais para assegurar aos seus clientes que estão “limpas de doenças”, porque são muitos os deles que demandam sexo invasivo sem proteção.

Tratar a ampla descriminalização da prostituição (legalização, basicamente) como um “direito humano” das mulheres prostituídas, é dizer que existe uma sub categoria de mulheres, que servem apenas para serem usadas como depósito masturbatório para homens, e para tanto, precisam estar livres de doenças, acessíveis e complacentes.

Como eu argumento em meu livro a ser lançado sobre o mercado global do sexo, a posição da Anistia Internacional não é fundada em um desejo de apoiar os direitos humanos das mulheres, mas em criar políticas individualistas e motivadas pelos interesses particulares dos homens.

Por que a esquerda se posiciona a favor do livre mercado somente quando são os corpos das mulheres que estão sendo comprados e vendidos? A Anistia Internacional demonstra sua preocupação com os “direitos” dos homens de comprarem sexo, enquanto ao mesmo tempo, tenta parecer igualmente preocupada com as mulheres; por exemplo, “…homens e mulheres [sic] que compram sexo consentido de adultos estão exercendo sua autonomia pessoal… Muitos desenvolvem um senso mais forte de identidade em suas relações com profissionais do sexo, aumentando seu prazer em viver e sua dignidade”

A Anistia Internacional está em boas companhias. Existe uma tendência dominante atualmente na esquerda masculina, que sugere que mulheres se tornam “agentes” de suas próprias vidas quando praticam qualquer tipo de atividade sexual que nos denigre — por exemplo, o lap dance e a prostituição. Homens tendem a aprovar de coração esse tipo de “libertação” para as mulheres, em oposição a libertação que remove, ao invés de encorajar, seus próprios direitos e privilégios.

O Neoliberalismo elevou o livre mercado a uma posição acima dos direitos humanos. O mercado do sexo posicionou a economia de livre mercado acima do corpo da mulher. O que essas organizações de direitos humanos estão pensando, apoiando essas práticas abomináveis?

No dia em que uma organização para os direitos humanos, como a Anistia Internacional, adotar políticas para descriminalizar o mercado de órgãos de pessoas pobres e desesperadas para o uso dos ricos ocidentais, eu vou parar de acusar essas organizações de serem claramente hipócritas. O fato de que o único apoio e proteção oferecido às mulheres sob o risco da prostituição consistir em legalizar cafetões e donos de bordéis, e dignificar os compradores de sexo, deixa muito claro que “direitos humanos” significa o direito dos homens.


O livro de Julie Bindel, ‘A Cafetinagem da Prostituição: Abolindo o mito do trabalho sexual” será publicado pela Palgrave Macmillan em 27 de Setembro. Detalhes sobre o lançamento do livro e o debate acerca do tema podem ser acessados aqui.


Este texto é uma tradução. Link para o texto original https://www.independent.co.uk/voices/prostitution-sex-trade-punters-pimps-womens-rights-exploited-hiv-condom-rule-a7913121.html?amp

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui