(tradução livre do texto de Nancy Jo Sales, para o The Guardian)

Danielle Bregoli apareceu numa live do Instagram, fazendo caras e bocas para a câmera do seu iPhone. Ela apertava os lábios e mostrava a língua, olhando fixamente para seus telespectadores, que a encorajavam com mensagens do tipo: “rebola”, “mostra os peitos” e “me chupa, menina”.

“Aqui é o Brazzers?”, alguém perguntou, referindo-se a um site pornográfico bem acessado. Bregoli, que tem 13 anos [à época do artigo, que é de 2017], foi lançada à fama numa onda normalizadora de sexualização infantil online. Ela representa uma nova tendência perturbadora: uma menina menor de idade que é tratada como uma estrela pornográfica nas redes sociais.

Ela apareceu primeiro em setembro de 2016, no programa de televisão Dr. Phil. “Adolescentes fora de controle” é algo que o programa adora mostrar e Bregoli foi apresentada como algo sem par, uma “menina de 13 anos ladra de carros, empunhando facas e rebolando”, com imagens de ela brigando fisicamente com a mãe. Quando as pessoas da audiência riram da menina, ela os desafiou a resolverem o problema com ela na saída. Um meme da internet nascia, e uma carreira nas redes sociais para a modesta menina de Boynton Beach, Florida.

Bregoli agora tem mais de 8 milhões de seguidores no Instagram [em 2019, esse número já dobrou], onde ela pode ser vista fazendo propaganda para chás emagrecedores. Dizem que ela tem em vista a participação em um reality show e a mãe dela contratou um gerenciador de mídias. Mas por que Bregoli tem um apelo tão crescente, em comparação a tantos outros “adolescentes fora de controle” que Dr. Phil tem trazido para a televisão ao longo dos anos para repreender?

A resposta fica clara num vídeo postado no Youtube em fevereiro de 2017, que tem mais de 3 milhões de visualizações. Ele mostra Bregoli deitada na cama, seminua, comentando sobre sua própria aparência de forma sexualizada e depreciativa. Alguns dos comentários impublicáveis no vídeo alegremente celebram a pedofilia.

Infelizmente, Bregoli não é um caso isolado quando se trata da cultura das redes sociais. Ser “gostosa” é um objetivo, inclusive para meninas muito novas. Os vídeos e as selfies dela são similares a outros que estão por toda internet.

Algumas das postagens infantis são às vezes solicitadas por predadores, como o caso do australiano que foi preso em 2017 sob alegação de ter obtido imagens explícitas de crianças se passando pelo cantor Justin Bieber, usando plataformas como Facebook e Skype. E às vezes as imagens são autogeradas livremente como uma forma de conseguir atenção, porque ser sexualmente provocante é frequentemente recompensado nas redes sociais.

“Se você posta uma foto ganhando um prêmio de matemática, as pessoas vão rir de você, mas se você posta uma foto de biquíni, você vai ganhar centenas de likes”, uma menina falou pra mim. E redes sociais são sobre likes, visualizações e seguidores — seguidores que as meninas frequentemente nem conhecem.

Imagem por Freepik, adaptada pela autora

Muitas meninas estão incomodadas com a sexualização de meninas nas redes sociais, como os pais delas deveriam estar também, se eles soubessem o que acontece. E algumas meninas me disseram que postar fotos provocantes é o feminismo delas, porque elas são sexualmente independentes. Afinal, isso é o que Kim Kardashian diz quando ela posta um nude — é feminismo.

E muitas meninas se espelham em Kim como um modelo na era digital. Ela é uma mulher de sucesso, dizem, “vejam como a sex-tape e os nudes dela a deixaram rica e famosa, e vejam quantos seguidores ela tem no Instagram!” [mais de 139 milhões].

Enquanto isso, a sexualização machuca as meninas. Em 2007, a American Psychological Association [Associação Psicológica Americana] lançou um estudo que fazia conexões entre a sexualização de meninas e uma série de problemas, como ansiedade, depressão, distúrbios alimentares e baixa autoestima. Além disso, muitas vezes, as postagens das crianças estão no limite da pornografia infantil, e existe um grande problema de proliferação de pornografia infantil no mundo todo.

O que deveria ser feito quando crianças postam fotos e vídeos sexualizados de si mesmos? Qual é a responsabilidade das companhias de redes sociais? E como a lei deve responder? Enquanto a sociedade tenta alcançar essa nova tecnologia, pais têm que estar na linha de frente de defesa. É hora de os pais de toda parte assumirem o controle de seus adolescentes sem controle, para o próprio bem-estar e proteção deles.


NT: Duas questões ainda são essenciais para a gente debater:

  1. Quem são os homens que têm interesse nesse tipo de conteúdo?
  2. Por que as crianças acham que é legal ser “sexy”?

Precisamos falar sobre a pedofilia e a mídia. E a cultura da pedofilia que ela prega.

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