Salários Contra o Trabalho Doméstico
Salários Contra o Trabalho Doméstico

Eles dizem que é amor. Nós dizemos que é trabalho não-remunerado. Eles chamam de frigidez. Nós chamamos de absentismo. Toda perda gestacional é um acidente de trabalho. A homossexualidade e a heterossexualidade são ambas condições de trabalho… Mas a homossexualidade é o controle da produção pelos trabalhadores, não o fim do trabalho.Mais sorrisos? Mais dinheiro. Nada será tão poderoso em destruir as virtudes curativas de um sorriso.Neuroses, suicídios, dessexualização: enfermidades ocupacionais da dona de casa.

Muitas vezes, as dificuldades e ambiguidades que as mulheres expressam ao discutir salários para o trabalho doméstico derivam da redução dos salários do trabalho doméstico numa coisa, um pedaço de dinheiro, em vez de vê-lo como uma perspectiva política.

A diferença entre esses dois pontos de vista é enorme. Ver os salários do trabalho doméstico como uma coisa e não como uma perspectiva é destacar o resultado final de nossa luta da própria luta e perder seu significado em desmistificar e subverter o papel ao qual as mulheres foram confinadas na sociedade capitalista.

Quando vemos os salários para o trabalho doméstico dessa forma redutiva, começamos a nos perguntar: que diferença um pouco mais de dinheiro poderia fazer em nossas vidas?

Podemos até concordar que, para muitas mulheres que não têm outra escolha, exceto o trabalho doméstico e o casamento, isso realmente faria muita diferença. Mas para aquelas de nós que parecem ter outras escolhas — o trabalho profissional, o marido esclarecido, o modo de vida comunitário, as relações homossexuais ou uma combinação dessas –, isso não faria muita diferença. Para nós, existem supostamente outras formas de alcançar a independência econômica, e a última coisa que queremos é conseguir isso nos identificando como donas de casa, um destino que todos nós concordamos ser, por assim dizer, pior que a morte.

O problema com esta posição é que em nossa imaginação costumamos adicionar um pouco de dinheiro para as vidas ruins que temos agora e depois perguntar, e daí?na falsa premissa de que poderíamos conseguir esse dinheiro sem, ao mesmo tempo, revolucionar — no processo de lutar por ele — todas as nossas relações familiares e sociais.

Mas se assumirmos os salários pelo trabalho doméstico como uma perspectiva política, podemos ver que lutar por isso vai produzir uma revolução em nossas vidas e em nosso poder social como mulheres. Também está claro que, se pensamos que não “precisamos” desse dinheiro, é porque aceitamos as formas particulares de prostituição do corpo e da mente pelas quais obtemos o dinheiro para esconder essa necessidade.

Como tentarei mostrar, os salários não são apenas uma perspectiva revolucionária, mas é a única perspectiva revolucionária de um ponto de vista feminista e, em última análise, para toda a classe trabalhadora.

Um Trabalho de Amor

É importante reconhecer que, quando falamos de trabalho doméstico, não estamos falando de um trabalho como outros trabalhos, mas estamos falando da manipulação mais penetrante, da violência mais sutil e mistificada que o capitalismo jamais perpetrou contra qualquer setor da classe trabalhadora.

É verdade que, sob o capitalismo, todo trabalhador é manipulado e explorado e sua relação com o capital é totalmente mistificada. O salário dá a impressão de um acordo justo: você trabalha e é pago, portanto você e seu chefe são iguais; enquanto, na realidade, o salário, em vez de pagar pelo trabalho que você faz, esconde todo o trabalho não pago que gera lucro.

Mas o salário pelo menos reconhece que você é um trabalhador, e você pode barganhar e lutar em torno e contra os termos e a quantidade desse salário, os termos e a quantidade desse trabalho.

Ter um salário significa fazer parte de um contrato social, e não há dúvida sobre o seu significado: você trabalha, não porque gosta ou porque vem naturalmente contigo, mas porque é a única condição sob a qual você pode viver.

Mas explorado como você possa ser, você não é esse trabalho. Hoje você é um carteiro, amanhã um taxista. Tudo o que importa é quanto desse trabalho você tem que fazer e quanto desse dinheiro você pode conseguir. Contudo, no caso do trabalho doméstico, a situação é qualitativamente diferente.

A diferença reside no fato de que não apenas o trabalho doméstico foi imposto às mulheres, mas também foi transformado em um atributo natural nosso físico e personalidade femininos, uma necessidade interna, uma aspiração, supostamente proveniente da profundidade de nosso caráter feminino.

O trabalho doméstico tinha que ser transformado em um atributo natural, em vez de ser reconhecido como um contrato social, porque, desde o início do esquema do capital para as mulheres, esse trabalho estava destinado a ser dispensado. O capital teve que nos convencer de que é uma atividade natural, inevitável e até mesmo gratificante nos fazer aceitar nosso trabalho não remunerado.

Por sua vez, a condição não remunerada do trabalho doméstico tem sido a arma mais poderosa para reforçar a suposição comum de que o trabalho doméstico não é trabalho, evitando assim que as mulheres lutem contra ele, exceto na disputa privatizada quarto-cozinha que toda a sociedade concorda em ridicularizar, reduzindo ainda mais o protagonista de uma luta. Somos vistas como vadias irritantes, não trabalhadoras em luta.

No entanto, o quão natural é ser dona de casa é demonstrado pelo fato de que são necessários pelo menos vinte anos de socialização — treinamento diário, realizado por uma mãe não remunerada — para preparar uma mulher para esse papel, convencê-la de que filhos e marido são o melhor que ela pode esperar da vida.Mesmo assim, dificilmente consegue.

Não importa quão bem treinados nós somos, poucas são as mulheres que não se sentem enganadas quando o dia de noiva acaba e elas se encontram na frente de uma pia de louça suja.

Muitas de nós ainda têm a ilusão de que nos casamos por amor. Muitas de nós reconhecem que nos casamos por dinheiro e segurança; mas é hora de deixar claro que, embora o amor ou o dinheiro envolvido seja muito pequeno, o trabalho que nos espera é enorme.

É por isso que as mulheres mais velhas sempre nos dizem: “Aproveite sua liberdade enquanto pode, compre o que quiser agora…” Mas infelizmente é quase impossível desfrutar de qualquer liberdade se desde os primeiros dias da vida você é treinada para ser dócil, subserviente, dependente e, mais importante, para se sacrificar e até mesmo sentir prazer com isso.Se você não gosta, é problema seu, seu fracasso, sua culpa, sua anormalidade

Devemos admitir que o capital tem sido muito bem-sucedido em esconder nosso trabalho. Ele criou uma verdadeira obra-prima em detrimento das mulheres. Negando um salário para o trabalho doméstico e transformando-o em um ato de amor, o capital matou muitos coelhos com uma cajadada só.

Primeiro de tudo, ele tem uma enorme quantidade de trabalho quase de graça, e garantiu que as mulheres, longe de lutar contra isso, procurassem esse trabalho como a melhor coisa da vida (as palavras mágicas: “Sim, querida, você é uma mulher de verdade”). Ao mesmo tempo, disciplinou o trabalhador masculino, tornando sua mulher dependente de seu trabalho e de seu salário, e aprisionou-o nessa disciplina dando-lhe um servo depois de ele mesmo ter feito tanto serviço na fábrica ou no escritório. De fato, nosso papel como mulheres é ser as servas não-remuneradas, mas felizes e, acima de tudo, amorosas, da “classe trabalhadora”, ou seja, aquelas camadas do proletariado às quais o capital foi forçado a conceder mais poder social.

Da mesma forma que Deus criou Eva para dar prazer a Adão, o capital também criou a dona de casa para servir fisicamente, emocionalmente e sexualmente ao trabalhador — criar seus filhos, consertar suas meias, consertar seu ego quando ele é esmagado pelo trabalho e as relações sociais (que são relações de solidão) que o capital reservou para ele. É precisamente essa combinação peculiar de serviços físicos, emocionais e sexuais que estão envolvidos no papel que as mulheres devem desempenhar pelo capital, que cria o caráter específico daquele servo que é a dona de casa, que torna seu trabalho tão pesado e, ao mesmo tempo, invisível.

Não é por acaso que a maioria dos homens começa a pensar em se casar assim que consegue o primeiro emprego. Isto não é só porque agora eles podem pagar, mas porque ter alguém em casa que cuida de você é a única condição para não enlouquecer depois de passar um dia em uma linha de montagem ou em uma mesa. Toda mulher sabe que isso é o que ela deveria estar fazendo para ser uma mulher de verdade e ter um casamento “bem-sucedido”. E neste caso também, quanto mais pobre a família, maior a escravidão da mulher, e não simplesmente por causa da situação monetária.

De fato, o capital tem uma política dupla, uma para a classe média e outra para a família proletária. Não é por acaso que encontramos o machismo menos sofisticado na família da classe trabalhadora: quanto mais golpes o homem recebe no trabalho, mais sua esposa deve ser treinada para absorvê-los, mais ele pode recuperar seu ego às custas dela. Você espanca sua esposa e desconta nela quando está frustrado ou exausto pelo seu trabalho ou quando você é derrotado em uma luta (entrar em uma fábrica é, em si, uma derrota).

Quanto mais o homem serve e é mandado, mais ele manda. A casa de um homem é seu castelo… e sua esposa tem que aprender a esperar em silêncio quando ele está mal-humorado, reconstituí-lo quando ele está em pedaços e xinga o mundo, se virar na cama quando ele diz “eu estou muito cansado essa noite”, ou quando ele acaba a transa tão rápido que, como uma mulher disse, poderia muito bem fazê-lo com um pote de maionese. (As mulheres sempre encontraram formas de reagir ou de se voltarem contra eles, mas sempre de forma isolada e privatizada. O problema, então, é como levar essa luta da cozinha e do quarto para fora e para as ruas).

Essa fraude, que passa sob o nome de amor e casamento, afeta todas nós, mesmo quando não somos casadas, porque uma vez que o trabalho doméstico foi totalmente naturalizado e sexualizado, uma vez que se tornou um atributo feminino, todas nós somos caracterizadas por ele.

Se é natural fazer certas coisas, espera-se que todas as mulheres as façam e até gostem de fazê-las — mesmo aquelas mulheres que, devido à sua posição social, poderiam escapar de parte desse trabalho ou da maior parte dele (seus maridos podem pagar empregadas domésticas, analistas e outras formas de relaxamento e diversão).

Podemos não servir a um homem, mas estamos todas em uma relação de servidão com relação a todo o mundo masculino. É por isso que ser chamada de mulher é uma coisa tão degradante. (“Sorria, querida, o que é que você tem?”, é algo que todo homem sente o direito de te perguntar, seja ele seu marido, o fiscal ou seu chefe no trabalho.)

A Perspectiva Revolucionária

Se partirmos dessa análise, podemos ver as implicações revolucionárias da demanda por salários para o trabalho doméstico.

É a exigência pela qual termina a nossa natureza e começa a nossa luta, porque só querer salários para o trabalho doméstico já significa recusar esse trabalho como expressão da nossa natureza e, portanto, recusar precisamente o papel feminino que o capital inventou para nós.

Pedir salários para o trabalho doméstico, por si só, minará as expectativas que a sociedade tem de nós, uma vez que essas expectativas — a essência de nossa socialização — são todas funcionais para nossa condição desassalariada no lar.

Nesse sentido, é absurdo comparar a luta das mulheres por salários com a luta dos trabalhadores do sexo masculino na fábrica por mais salários.

O trabalhador assalariado na luta por mais salários desafia seu papel social, mas permanece dentro dele. Quando lutamos por salários, lutamos sem ambiguidade e diretamente contra nosso papel social.Do mesmo modo, há uma diferença qualitativa entre as lutas do trabalhador assalariado e as lutas do escravo por um salário contra essa escravidão.

Deve ficar claro, no entanto, que quando lutamos por um salário não nos esforçamos para entrar nas relações capitalistas, porque nunca saímos delas. Lutamos para quebrar o plano de capital para as mulheres, que é um momento essencial dessa divisão planejada de trabalho e poder social dentro da classe trabalhadora, através da qual o capital tem sido capaz de manter seu poder.

O salário para o trabalho doméstico, então, é uma demanda revolucionária não porque destrua o capital, mas porque ataca o capital e força-o a reestruturar as relações sociais em termos mais favoráveis ​​a nós e, consequentemente, mais favoráveis ​​à unidade da classe.

De fato, exigir salários para o trabalho doméstico não significa dizer que, se formos pagas, continuaremos a fazê-lo. Significa precisamente o oposto. Dizer que queremos dinheiro para o trabalho doméstico é o primeiro passo para recusar, porque a demanda por um salário torna visível o nosso trabalho, que é a condição mais indispensável para começar a lutar contra ele, tanto em seu aspecto imediato como trabalho doméstico e em seu caráter mais insidioso como feminilidade.

Contra qualquer acusação de “economicismo” devemos lembrar que dinheiro é capital, ou seja, é o poder de comandar o trabalho.

Portanto, reapropriar que o dinheiro que é fruto do nosso trabalho — do trabalho de nossas mães e avós — significa, ao mesmo tempo, minar o poder do capital de comandar o trabalho forçado de nossa parte. E não devemos desconfiar do poder do salário em desmistificar nossa feminilidade e tornar visível nosso trabalho — nossa feminilidade como trabalho — uma vez que a falta do salário tem sido tão poderosa em moldar esse papel e esconder nosso trabalho.

Exigir salários para o trabalho doméstico é tornar visível que nossas mentes, corpos e emoções foram todos distorcidos para uma função específica, em uma função específica, e então foram devolvidos a nós como um modelo ao qual todas devemos nos conformar se queremos ser aceitas como mulheres nesta sociedade.

Dizer que queremos salários para o trabalho doméstico é expor o fato de que o trabalho doméstico já é dinheiro para o capital, esse capital fez e faz dinheiro quando cozinhamos, sorrimos, transamos.

Ao mesmo tempo, isso mostra que nós cozinhamos, sorrimos, transamos ao longo dos anos não porque era mais fácil para nós do que para qualquer outra pessoa, mas porque não tínhamos outra escolha. Nossos rostos ficaram distorcidos de tanto sorrir, nossos sentimentos se perderam de tanto amar, nossa supersexualização nos deixou completamente dessexualizadas.

Os salários para o trabalho doméstico são apenas o começo, mas sua mensagem é clara: a partir de agora eles têm que nos pagar porque, como mulheres, não garantimos mais nada.Queremos chamar trabalho o que é trabalho para que eventualmente possamos redescobrir o que é amor e criar o que será nossa sexualidade, que nunca conhecemos.

E do ponto de vista do trabalho, podemos pedir não um salário, mas muitos salários, porque fomos forçadas a muitos empregos de uma só vez.

Somos empregadas domésticas, prostitutas, enfermeiras, psiquiatras; esta é a essência da esposa “heroica” que é celebrada no “Dia das Mães”. Nós dizemos: pare de celebrar nossa exploração, nosso suposto heroísmo. De agora em diante, queremos dinheiro para cada momento, para que possamos recusar alguns e, eventualmente, tudo isso. A esse respeito, nada pode ser mais eficaz do que mostrar que nossas virtudes femininas têm um valor monetário calculável, até hoje apenas para o capital, aumentado na medida em que fomos derrotadas; de agora em diante contra o capital para nós na medida em que organizamos o nosso poder.

A luta pelos serviços sociais

Essa é a perspectiva mais radical que podemos adotar porque, embora possamos pedir por tudo, creche, pagamento igual, lavanderias gratuitas, nunca conseguiremos qualquer mudança real, a menos que ataquemos nosso papel feminino em suas raízes.

A nossa luta pelos serviços sociais, ou seja, por melhores condições de trabalho, será sempre frustrada se não determinarmos primeiro que o nosso trabalho é trabalho. A menos que lutemos contra a totalidade dela, nunca conseguiremos vitórias com respeito a nenhum de seus momentos.

Nós falharemos na luta pelas lavanderias gratuitas, a menos que primeiro lutemos contra o fato de que não podemos amar a não ser pelo preço do trabalho infindável, que dia após dia prejudica nossos corpos, nossa sexualidade, nossas relações sociais, a menos que escapemos da chantagem por meio da qual nossa necessidade de dar e receber afeição é voltada contra nós como um dever de trabalho pelo qual nos sentimos constantemente ressentidas contra nossos maridos, filhos e amigos, e culpadas por esse ressentimento. Conseguir um segundo emprego não muda esse papel, como os anos e anos de trabalho feminino fora de casa ainda testemunham.

O segundo trabalho não apenas aumenta nossa exploração, mas simplesmente reproduz nosso papel em diferentes formas. Onde quer que estejamos, podemos ver que os trabalhos que as mulheres desempenham são meras extensões da condição da dona de casa em todas as suas implicações.

Ou seja, não apenas nos tornamos enfermeiras, empregadas domésticas, professoras, secretárias — todas funções para as quais somos bem treinadas no lar — mas também estamos no mesmo vínculo que dificulta nossas lutas no lar: isolamento, o fato de que a vida de outras pessoas depende de nós, ou a impossibilidade de ver onde o nosso trabalho começa e termina, onde o nosso trabalho termina e os nossos desejos começam.

Trazer café para o seu chefe e conversar com ele sobre seus problemas conjugais, laborais ou do escritório é um favor pessoal? O fato de termos que nos preocupar com a nossa aparência no trabalho é uma condição de trabalho ou é o resultado da vaidade feminina? (Até recentemente, aeromoças aéreas nos Estados Unidos eram pesadas periodicamente e precisavam estar constantemente em dieta — uma tortura que todas as mulheres conhecem — por medo de serem demitidas). Como se costuma dizer — quando as necessidades do mercado de trabalho assalariado exigem sua presença lá — uma mulher pode fazer qualquer trabalho sem perder sua feminilidade, o que significa simplesmente que não importa o que você faça, você ainda é uma vagabunda.

Quanto à proposta de socialização e coletivização do trabalho doméstico, alguns exemplos serão suficientes para traçar uma linha entre essas alternativas e nossa perspectiva. Uma coisa é montar uma creche do jeito que queremos e exigir que o Estado pague por ela. Outra coisa é entregar nossos filhos ao Estado e pedir ao Estado para controlá-los, discipliná-los, ensiná-los a honrar a bandeira americana não por cinco horas, mas por quinze ou vinte e quatro horas. Uma coisa é organizar comunitariamente a maneira como queremos comer (por nós mesmos, em grupos, etc.) e depois pedir ao Estado que pague por isso, e é o oposto pedir ao Estado para organizar nossas refeições. Em um caso, recuperamos algum controle sobre nossas vidas, no outro, estendemos o controle do Estado sobre nós.

A luta contra o trabalho doméstico

Algumas mulheres dizem: como os salários das tarefas domésticas vão mudar as atitudes de nossos maridos em relação a nós? Nossos maridos ainda esperam os mesmos deveres de antes e até mais do que antes, uma vez que somos pagas para isso? Mas essas mulheres não veem que podem esperar muito de nós precisamente porque não somos pagas pelo nosso trabalho, porque elas assumem que é “uma coisa de mulher”, o que não nos custa muito esforço.

Os homens aceitam nossos serviços e tiram prazer disso porque presumem que o trabalho doméstico é fácil para nós, que gostamos disso porque o fazemos por amor. Eles realmente esperam que sejamos gratas porque, casando-se conosco ou vivendo conosco, eles nos deram a oportunidade de nos expressar como mulheres (ou seja, para servi-los), “Você tem sorte de ter encontrado um homem como eu”.

Somente quando os homens verem nosso trabalho como trabalho — nosso amor como trabalho — e, mais importante, nossa determinação em recusar ambos, eles mudarão sua atitude em relação a nós. Quando centenas e milhares de mulheres estão nas ruas dizendo que a limpeza interminável, estar sempre disponível emocionalmente, foder às ordens por medo de perder nossos empregos é um trabalho duro e odioso que desperdiça nossas vidas, então eles ficarão assustados e se sentirão minados como homens.

Mas esta é a melhor coisa que pode acontecer do seu próprio ponto de vista, porque ao expor a forma como o capital nos mantém divididos (o capital os disciplinou através de nós e a nós através deles — uns contra os outros), nós — suas muletas, suas escravas, suas correntes — abrimos o processo de sua libertação.

Neste sentido, os salários para o trabalho doméstico serão muito mais educativos do que tentar provar que podemos trabalhar tão bem quanto eles, que podemos fazer os mesmos trabalhos. Deixamos este esforço que vale a pena para a “mulher de carreira”, a mulher que escapa de sua opressão não pelo poder da unidade e da luta, mas pelo poder do mestre, o poder de oprimir — geralmente outras mulheres.

E nós não temos que provar que podemos “quebrar a barreira do colarinho branco”. Muitas de nós quebramos essa barreira há muito tempo e descobrimos que o sobretudo não nos dava mais poder do que o avental; se é que é possível, ainda menos, porque agora tínhamos que usar os dois e tínhamos menos tempo e energia para lutar contra eles.

As coisas que temos que provar são nossa capacidade de expor o que já estamos fazendo, o que o capital está fazendo conosco e nosso poder na luta contra ele.

Infelizmente, muitas mulheres — particularmente mulheres solteiras — têm medo da perspectiva de salários para o trabalho doméstico, porque têm medo de se identificar, ainda que por um segundo, com a dona de casa.Elas sabem que esta é a posição mais impotente da sociedade e por isso não querem perceber que também são donas de casa. Esta é precisamente a sua fraqueza, uma fraqueza que é mantida e perpetuada pela falta de autoidentificação.

Queremos e temos que dizer que somos todas donas de casa, somos todas prostitutas e somos todas gays, porque até reconhecermos nossa escravidão não podemos reconhecer nossa luta contra ela; enquanto pensamos que somos algo melhor, algo diferente de uma dona de casa, nós aceitamos a lógica do mestre, que é uma lógica de divisão e, para nós, a lógica da escravidão.

Somos todas donas de casa porque não importa onde estamos, eles sempre podem contar com mais trabalho de nossa parte, mais medo do nosso lado para apresentar nossas demandas e menos pressão sobre eles por dinheiro, já que esperam que nossas mentes estejam em outro lugar, direcionadas para aquele homem em nosso presente ou futuro que “vai tomar de conta de nós”.

E nós também nos iludimos que podemos escapar do trabalho doméstico. Mas quantas de nós, apesar de trabalhar fora de casa, escaparam? E podemos realmente desconsiderar tão facilmente a ideia de viver com um homem? E se perdermos nossos empregos? Que tal envelhecer e perder até mesmo a quantidade mínima de energia que a juventude (produtividade) e a atratividade (produtividade feminina) nos proporcionam hoje? E as crianças? Será que algum dia nos arrependeremos de ter escolhido não as ter, nem mesmo tendo sido capazes de fazer essa pergunta de forma realista? E podemos bancar as relações lésbicas? Estamos dispostas a pagar o preço possível do isolamento e exclusão? Mas podemos realmente bancar relações com homens?

A questão é: por que essas são as nossas únicas alternativas e que tipo de luta nos moverá para além delas?


Silvia Federici. Nova Iorque, primavera de 1974


Trecho traduzido do livro “Wages Against Housework”, ed. Power of Women Collective and Falling Wall Press, 1975

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