Serviços essenciais? O trabalho reprodutivo na pandemia do Capital
Imagem por Sara Wong, originalmente para o Portland Monthly

Como a pandemia de covid-19 escancarou as contradições patriarcais do capitalismo

Com a pandemia de coronavírus e a nova crise capitalista se instaurando, as contradições de uma economia que rege a vida humana mas que é baseada não na vida e sim no lucro e na acumulação de capital se tornam transparentes.

O sistema capitalista, como tal, é um modelo econômico e sócio-político muito jovem (pouco mais de 200 anos) e se estruturou aprofundando a cova da divisão sexual do trabalho, isso é, aquela primeira divisão de tarefas que forneceram a base para os papéis sociais de sexo (o gênero).

Para esse sistema funcionar, foi necessário hierarquizar as mulheres, colocando umas na posição de “princesa indefesa”: feita para o casamento, frágil e submissa incapaz e incapacitada de trabalhar, criada para ser propriedade do marido e confinada no lar, para procriar herdeiros masculinos, mas privadas de controlar sua própria sexualidade e reprodução; e outras na posição de trabalhadoras braçais: exploradas, propriedades do colonizador, feitas para parir mais mão-de-obra e para cuidar dos herdeiros masculinos do escravagista, enquanto era privada de cuidar dos seus próprios filhos, privadas de decidir sobre sua própria sexualidade e reprodução.

Ambas com sua subjetividade, vida, pessoalidade, criatividade, autonomia e liberdade negadas e postas a serviço dos homens e para reforço de seu status dominante.

Mulheres brancas tiveram de lutar para poder trabalhar e ter autonomia financeira que não as fizessem depender inteiramente, inclusive sua existência e de seus filhos, dos seus donos legais, os maridos. Mulheres negras tiveram de lutar para poder conseguir trabalhos significativos – não escravo, não desigual – para poderem garantir sua autonomia financeira, poder prover sua família, já que a violência policial e racial em geral não permitia que pudessem contar com seus companheiros sequer. Mulheres indígenas foram cada vez mais empurradas para os trabalhos da “civilização” imposta pelo colonizador, uma vez que sua terra, sua cultura e seu povo sofriam ataques genocidas constantes e poucas alternativas restavam.

A divisão sexual do trabalho que colocava mulheres para cuidar da reprodução, do lar, dos filhos não era nova. Novos eram os moldes em que isso era agora feito. Nova era a hierarquia racial criada para alavancar e solidificar esse sistema. E que assegurou que mulheres e homens da classe trabalhadora fossem de tal forma hierarquizados sob uma relação de dominação e subordinação que tornou tão difícil a nossa união na luta.

Hoje, com a ideologia neoliberal arraigada e o sistema capitalista estabelecido — com tudo que isso implica, incluindo suas crises cíclicas por ser um modelo e político insustentável para a natureza e as pessoas – essa divisão sexual do trabalho agora também nivelada também pela hierarquia racial continua a se fazer valer, praticamente intocada. As mulheres foram progressivamente integradas na força de trabalho produtiva, embora não sem entraves, não igualmente e não em boas condições. Contudo, o trabalho doméstico e reprodutivo continua sobre as costas das mulheres e para benefício de homens. E mesmo na força de trabalho fora de casa, a maioria dos empregos em que estão as mulheres não são mais que uma extensão do trabalho reprodutivo, de cuidados e emocional feito em casa: são secretárias, mas na maioria não são chefes; são cozinheiras, mas na maioria não donas de restaurantes; são enfermeiras, mas na maioria não são médicas; são professoras, são cuidadoras, são babás, são profissionais de limpeza, são auxiliares, são psicólogas, são pedagogas…

As mulheres seguem parindo e cuidando, pagas ou não, da sociedade. A divisão sexual do trabalho segue pouco alterada, apesar das experiências comunistas e das investidas do movimento feminista. As profissões mais mal pagas são aquelas que entendem como extensão do trabalho doméstico: limpar, cozinhar, educar, cuidar. É onde as mulheres estão. É onde somos a maioria.

E o coronavírus?

Com a pandemia global, o isolamento e o cessar de atividades se fez necessário para conter a velocidade de contágio e, assim, tentar reduzir número de mortes. Mas nem todos os setores podiam parar. A manutenção de determinados serviços eram essenciais, precisavam de continuar mesmo expondo a vida daquelas pessoas trabalhadoras ao risco.

Que serviços são esses? Quais serviços são essenciais? O que é percebemos, afinal, como essencial para a sobrevivência da sociedade?

Não era a venda de carros. Não era a venda de sapatos. Não era a venda de bolsas. Não era a fabricação de cerveja. Não era o McDonalds.

Eram os cuidados.

Os lares de idosos, com todas as cuidadoras. Os centros de saúde e hospitais com a enfermagem, suas cantinas, a recepção, toda a equipe de auxiliares. Os mercados e as farmácias, também setores altamente femininizados. A educação, que fechou estabelecimentos, mas continuou às pernas bambas, mostrando a dimensão do caos que se instala quando não há creche, quando não há quem cuide das crianças e adolescentes para que o trabalho funcione e produza.

E então… o Rei está nu! A contradição transparece por todos os lados.

O sistema capitalista se estruturou desvalorizando o trabalho que a dominação masculina definiu como o “trabalho das mulheres”, dizendo que os cuidados e o trabalho reprodutivo não eram trabalho, eram amor e “responsabilidade individual de cada um”. Esta organização econômica, política e social empurrou para o ombro das mulheres esse trabalho que permitia que a economia girasse ao cuidar de toda a sociedade e educar as gerações de trabalhadores, pesquisadores e cientistas do mundo, e depois o invisibilizou. E agora, em meio a mais uma de suas crises, obriga a sociedade a encarar as suas veias abertas: essencial, de fato, é o trabalho reprodutivo, os cuidados, o educar, o criar. Essa é a base das comunidades humanas, a base da sociedade e a base da nossa natureza de grupo.

A crise provocada pela nova pandemia mostrou que não é mais possível ignorar o trabalho reprodutivo. Que é preciso partilhar os cuidados. Que é preciso um sistema público de saúde e educação robusto e estruturado que atenda a todos universalmente. Muitos trabalhadores e trabalhadoras estão hoje fazendo seu serviço em casa com os filhos no colo, nos pés. Têm de produzir, cozinhar, educar, fazer 3 papéis ao mesmo tempo: o de educador, o de cuidador dos mais velhos e doentes crônicos, o de pai/mãe e de trabalhador comum. A maioria a aguentar esse peso, é claro, são as mulheres. Mas nós já sabíamos dessa realidade sem pandemia. E já sabíamos que isso não era, obviamente, possível — daí as altas taxas de abandono do trabalho formal ou da universidade ou escola entre o sexo feminino por causa da maternidade ou para cuidar de enfermos na família.

O trabalho produtivo só é possível se o trabalho reprodutivo for assegurado. Mas o bem-estar e diria até — por que não? — a felicidade das pessoas, nas suas vidas pessoais, nas suas relações, na estabilidade da comunidade só é possível se os cuidados forem socializados.

A questão é: o que nós, como movimento feminista pela libertação das mulheres, faremos com isso? Pagaremos a crise, submissas e atoladas em trabalho reprodutivo?

Articularemo-nos num movimento de massas para exigir a socialização dos cuidados na criação de cantinas públicas, creches e escolas, exigir mais centros de saúde, exigir mais assistência à infância e à família, exigir menos tempo de trabalho para podermos efetivamente viver vidas autônomas? Não apenas como parte da massa de mão-de-obra, mas como pessoas – sim, seres humanos com direito à liberdade, ao lazer, à cultura, muito além da circunscrição do trabalho?

E o que os homens em seus movimentos farão com essa realidade escancarada? Continuarão a jogar o trabalho doméstico e reprodutivo nas costas de suas companheiras? Juntar-se-ão a nós nessa luta pela autonomia reprodutiva, contra a precariedade da vida? Ou continuarão assegurando seus interesses como classe masculina que sobrevive às custas da liberdade e vida das mulheres?

Essencial é a autonomia reprodutiva, a soberania alimentar e a socialização dos cuidados.

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