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Nós admitimos, sem problema algum, que algumas mulheres escolhem a prostituição.

Nós admitimos, sem problema algum, que algumas mulheres escolhem entrar para a indústria pornográfica.

Nós admitimos, sem problema algum, que algumas mulheres escolhem o casamento. Ou escolhem frequentar uma igreja, ainda que a igreja em questão dite regras que possam cercear sua liberdade.

Mulheres fazem muitas escolhas. Todas nós fazemos. Para sermos aceitas, para ter um teto, para ter uma cama para dormir, para ter comida, para ter segurança, para não sermos julgadas.

Algumas mulheres escolhem permanecer em relacionamentos violentos porque a alternativa seria ficar sem teto com os filhos ou sozinha e viver em fuga de um potencial femicida. Algumas mulheres escolhem fazer sexo sem vontade para evitar uma discussão na relação, por medo, por preservação.

Algumas mulheres, em países devastados pela guerra, escolhem atravessar o oceano com filhos pequenos nos braços, num bote com 80 pessoas, arriscando suas vidas, para ser imigrante ilegal num país desconhecido onde não tem raízes.

Algumas mulheres agora, em Moçambique, estão escolhendo se submeter sexualmente a homens estrangeiros, soldados, em troca de comida após o desastre na Beira.

Feminismo não é sobre as escolhas que as mulheres fazem. É sobre as escolhas que não podemos fazer e sobre o que condiciona e molda as nossas escolhas. Sobre como podemos eliminar essas barreiras e fazer do mundo um lugar para mulheres TAMBÉM.

Não um pouquinho melhor.
Não um pouquinho mais digno.
Não menos mal. 
Não para algumas.

Para todas.

Não é sobre poder escolher usar um hijab, mas sobre não poder escolher NÃO usá-lo. Não é sobre poder escolher passar pela mutilação genital, mas sobre não poder escolher NÃO passar por isso. Não é sobre a mulher poder escolher se prostituir, mas sobre não poder escolher NÃO ser prostituta – como as desabrigadas, as refugiadas, as mais pobres. É sobre as mulheres que não podem escolher NÃO serem casadas ainda crianças. É sobre as mulheres que não podem escolher NÃO prosseguir com a gravidez.

É sobre as escolhas que não podemos fazer.
Sobre as escolhas que homens podem fazer sobre nós.
Sobre em que condições as escolhas são feitas.

Por isso, é indiferente que algumas mulheres escolham estar na prostituição ou na pornografia se outras não podem escolher NÃO ESTAR. Enquanto feministas, nossa tarefa não é pedir por proibição ou legalização da ESCOLHA da mulher.

Enquanto feministas, ativistas na luta por um mundo livre de opressão, um mundo onde todas as mulheres possam habitar como seres humanos plenos – não como objetos, não mercadorias, não subjugadas a homens, sejam estes os seus pais, padres, maridos, militares ou patrões – enquanto feministas engajadas pela libertação das mulheres, nossa tarefa é eliminar o poder dos homens sobre as mulheres.

Por que homens podem escolher pagar para fazer sexo com uma mulher que não deseja, enquanto tantas mulheres não podem simplesmente escolher NÃO serem prostituídas ou sair da prostituição?

Por que homens podem escolher vender e comprar meninas em casamento, mas meninas não podem escolher NÃO se casarem com estes homens?

Por que homens podem escolher mutilar mulheres enquanto mulheres NÃO podem escolher não ser mutiladas?

Por que homens podem escolher impor a burkha e o hijab às mulheres enquanto mulheres NÃO podem escolher não utilizá-las?

Em todo o mundo, nós somos usadas, compradas, vendidas e atacadas sob o mesmo padrão, pelas mesmas pessoas. Assim, somos usadas, compradas, vendidas e atacadas como um GRUPO.

Não pode haver um padrão duplo.

Por isso, as legislações propostas por feministas abolicionistas – que desejam abolir a dominação dos homens sobre as mulheres – focaram na erradicação da opressão, e não a erradicação da escolha.

A Lei do Comprador, conhecida como Modelo Nórdico, não proíbe a escolha da mulher de se prostituir. Proíbe a escolha do HOMEM de comprá-la como uma mercadoria.

A ordenança anti-pornografia, desenvolvida por Andrea Dworkin (autora feminista sobrevivente da prostituição e violência doméstica e sexual) e Catharine MacKinnon (jurista feminista que emplacou a primeira lei contra Assédio Sexual no trabalho nos EUA) não proibia mulheres de fazerem filmes ou trabalhos pornográficos, mas sim dava-lhes poder de processar pornógrafos se se sentissem lesadas, abusadas ou exploradas.

Isto é colocar o poder na mão da mulher. Tirar o poder do homem sobre ela. E sem, em momento algum, limitar as suas escolhas.

Não pode haver uma prostituição empoderadora para uma mulher enquanto a mesma prostituição diminui os direitos e status humano de outra mulher.

A pornografia não pode ser empoderadora para uma mulher enquanto significa tráfico, abuso, estupro e morte para outras.

Se somos atacadas como um grupo, o status de uma é interdependente do status da outra. Ou somos libertas como um grupo ou não somos.

Todas ou nenhuma.

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