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Por uma cultura genuinamente lésbica

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Nossa autodefinição é um dos caminhos para a destruição do patriarcado


“O mundo lésbico envolve uma grande tarefa de síntese,
de entrelaçar as vertentes, de criar uma matriz a partir
da deformada e perigosa existência lésbica” (Susan Hawthorne — A despolitização da cultura lésbica).


“Por muito tempo, soube mais fatos sobre unicórnios do que sobre lésbicas — e não existem fatos sobre unicórnios”. Essa frase, dita pela comediante australiana Hannah Gadsby em seu show Nanette (Netflix, 2018) é uma síntese da invisibilidade que atravessa a comunidade lésbica. Os unicórnios são seres mitológicos; eles não existem. Quanto às lésbicas, se, por um lado, acreditamos na resistência lésbica, no esforço que mulheres que amam mulheres fazem para sobreviver na nossa sociedade, no esforço em resistir ao poder sexual masculino; por outro, somos o tempo todo atravessadas pelas dúvidas: como as lésbicas existem? O que são? Quem são? Onde vivem? Como se relacionam?

Acontece que somos muito mais do que um assunto vazio a preencher as páginas de revistas de comportamento e publicidades de marcas descoladas. O apagamento das lésbicas na história e nos dias atuais tem ligação com a lesbofobia — ou seja, com a misoginia. Significa dizer que o apagamento das lésbicas está atrelado à imposição do papel social que a sociedade espera que cumpramos. A civilização patriarcal em que vivemos foi fundada e se mantém há seis mil anos no regime político da heterossexualidade compulsória[1], a cada dia se renovando, mas mantendo as mesmas premissas. Para que mulheres acreditem que precisam se apaixonar por homens, ter seus filhos e aguentar toda a violência masculina sem nada em troca, é preciso que se apague a existência das lésbicas.

O apagamento lésbico também serve para minar os esforços de nos organizarmos coletivamente. Se não conhecemos as histórias de mulheres que se organizaram antes de nós, não conseguimos ter boas ideias e seguimos batendo a cabeça em relação a como nos organizar. Por exemplo, pouco conhecemos das iniciativas de mulheres que ousaram tentar o separatismo lésbico[2] como tática e das coletivas organizadas para atendimento e acolhimento de mulheres lésbicas. Se não falamos que somos lésbicas, se não nos descobrimos lésbicas, não conseguimos construir uma irmandade emancipatória. A instituição da heterossexualidade, ou seja, o conjunto de estruturas consolidadas que nos condicionam a dedicar nossa energia laboral, afetiva e reprodutivo-sexual aos homens, busca aniquilar a possibilidade de nos aliarmos em favor de nossa sobrevivência.

Ainda sobre apagamento, a filósofa e feminista estadunidense Sarah Hoagland defende que a existência lésbica não tem lugar na sociedade patriarcal:

“No esquema conceitual de falocracias não existe uma categoria de mulheres-identificadas-com-mulheres, mulheres-que-amam-mulheres ou mulheres-centradas-em-mulheres; isto é, não existem lésbicas. Isto coloca lésbicas em uma posição interessante e peculiar de serem algo que não existe, e esta posição é uma vantagem singular com relação à realidade que não as integra. Isto dá a elas certa liberdade diante das restrições do sistema conceitual; isto dá a elas acesso ao conhecimento que é inacessível àquelas cuja existência é estimulada pelo sistema. Lésbicas podem, portanto, se encarregar de certos tipos de crítica e descrições, e tipos de invenção intelectual, até então inimagináveis” (Hoagland citada por Marilyn Frye em To Be and Be Seen).

A afirmação de Hoagland é, ao mesmo tempo, ácida e desafiadora. Para ela, se nossa existência não é considerada, se não conseguimos delimitar ao certo o que são as lésbicas, se não estamos inscritas na história nem nas páginas de dicionário, a não ser pelo olhar masculinista, isso significa que poderíamos construir do zero nossa autodefinição. Lésbica negra feminista, como gostava de se definir, Audre Lorde também nos ensina muito sobre a importância de abandonar os olhares colonizadores e buscarmos dentro de nós o autoconhecimento. Esse é um processo que pode ser doloroso, porque mudanças são dolorosas, mas é essencial para entendermos o nosso lugar no mundo.

“O medo que sentem das lésbicas ou de serem tachadas de lésbicas tem levado muitas mulheres negras a depor contra si mesmas. Tem levado algumas de nós a fazer alianças destrutivas e outras ao desespero e ao isolamento. Entre as mulheres brancas, a heteronormatividade[3] às vezes é o resultado de uma identificação com o patriarcado branco e de uma rejeição dessa interdependência entre mulheres-que-priorizam-mulheres que nos permite ser quem somos em vez de sermos usadas a serviço dos homens. Isso se reflete, às vezes, na crença ferrenha na suposta proteção dos relacionamentos heterossexuais e, às vezes, em auto-ódio, algo que é ensinado desde que nascemos e que todas precisamos combater” (Audre Lorde no artigo Idade, raça, classe e sexo: as mulheres redefinem a diferença do livro Irmã Outsider).

Muitas mulheres fogem da “acusação” de serem lésbicas. Marilyn Frye explicita muito bem isso em sua fala Você precisa ser lésbica para ser feminista? quando denuncia a lesbofobia também expressa em espaços feministas. “Sou feminista, mas não sou lésbica”: não raro ouvimos essa frase. Nas ruas, ainda vemos o medo de algumas mulheres de cortarem seus cabelos e automaticamente se tornarem lésbicas. Deixamos de elogiar mulheres para não sermos confundidas com as sapatonas. Batemos no peito forte para dizer que temos amigos homens. Não nos relacionamos com mulheres de forma alguma. “Somos o que quisermos ser”; e mulheres podem querer ser tudo, menos lésbicas.

Pouco sabemos sobre mulheres lésbicas que, por medo de perseguições, pelas falsas promessas de segurança dentro de relacionamentos heterossexuais ou mesmo pelo auto-ódio, como argumenta Lorde, vivem dentro de armários eternos. Pouco sabemos sobre aquelas que vivem dentro de armários sem saber por falta de referências — por nunca terem sequer se permitido imaginar o amor por outra mulher. Pouco sabemos até de lésbicas assumidas enquanto crescemos.

Em Lesbian nationthe feminist solution (1973), Jill Johnston conta sobre ser lésbica na América, na sua juventude: “Eu nunca disse que era sapatona [dyke] nem para outra sapatona porque não havia uma sapatona no território que pensava que poderia ser sapatona ou mesmo que era sapatona, então como poderíamos falar sobre isso?”. A pergunta, embora pareça engraçada, nos faz tristes por pensar que, naquele tempo e até hoje, temos dificuldade de nos identificar com outras mulheres e de, quando a identificação acontece, nomear o porquê. Algumas de nós tivemos ídolas na música, no cinema, professoras e até mesmo aquela tia de quem zombávamos por ser “solteirona” — muitas delas lésbicas. Lésbicas inomináveis, impronunciáveis, que até poderíamos admirar, desde que não mencionássemos o porquê.

Quando não somos capazes de nomear alguma coisa, não admitimos sua existência — é por isso que é tão difícil definir o que lésbicas são. É esse mito patriarcal de que não somos reais que nos imerge num mar de solidão — mesmo lado a lado com outra lésbica, estamos órfãs de um nome, de uma genealogia, de uma memória, de uma referência. Essa ausência de lésbicas na vida cotidiana é devastadora para as mulheres: desde aquelas que nunca consideraram uma experiência lésbica, passando por nossas girinas (jovens lésbicas), até nossas sapatonas da terceira idade. Não é só no armário que desaparecemos.

Também em Nanette, Hannah Gadsby denuncia a falta de perspectiva sobre uma cultura lésbica e a falta de representação que percebe no movimento gay. Ela diz que uma das razões para existir um conflito em “se identificar como gay” era o fato de a Parada Gay e Lésbica de Sydney (Austrália) ter sido a primeira apresentação dela ao universo homossexual, o que a deixava bastante incomodada, afinal ela não se sentia festiva o suficiente para frequentar paradas por sempre ter se considerado uma “alma quieta”.

“Eu assistia e pensava: ‘lá está o meu povo. São agitados, não são? Adoram dançar e fazer festa’. Eu assistia e pensava: ‘aonde os gays quietos vão? Aonde os gays quietos deveriam ir?’. Ainda penso. É só que a pressão no meu povo para expressar identidade e orgulho pela metáfora da festa é muito intensa. (…) Adoro o significado da bandeira do Orgulho Gay, é perfeito. Orgulho. Maravilhoso. Mas a bandeira em si? Muita informação. São seis cores berrantes e agressivas empilhadas uma em cima da outra, o olho não descansa”.

Essa fala de Hannah Gadsby revela um problema muito presente nos espaços de convivência e militância lésbica. É bastante perceptível o incômodo de muitas de nós com essa pressão, como ela bem coloca, para as festividades, o glitter, as fantasias e os trios elétricos. É como se a vida inteira fosse uma sequência de limitações, violências e atravessamentos negativos e, por um dia, tivéssemos que fingir que nosso orgulho se manifesta de forma festiva. Quando, na verdade, o orgulho das lésbicas deveria ser a nossa própria sobrevivência, a resistência em não nos rendermos à heterossexualidade e aos caprichos sexuais dos homens, e a coragem de, num mundo misógino como o nosso, ousarmos amar e nos relacionar com mulheres.

A cultura gay, buscando aceitação, enfeita o patriarcado com muita purpurina. Ela é assim por ser uma cultura masculina, um tanto desviante, buscando um encaixe mais confortável dentro do sistema. Já a luta das mulheres precisa destruir o sistema, pois nossa emancipação não se dará colorindo nossa opressão — e isso coloca as lésbicas inseridas dentro do movimento gay num não lugar que não difere muito do que já ocupamos na sociedade. É por esse e muitos outros motivos que não podemos, enquanto lésbicas, nos considerar parte do mundo gay[4] — o que destrói as esperanças de muitas lésbicas em busca de dar sentido à própria existência. No entanto, Susan Hawthorne em A despolitização da cultura lésbica nos alerta que a aceitação é só mais uma forma de apagamento: “A aceitação é um pouco melhor, mas é apenas um degrau acima. Ela nos encoraja a desaparecer, a nos misturarmos à multidão, a nos recusarmos a falar a partir de nossa perspectiva, nossa experiência”. O que nos traz de volta ao nosso questionamento inicial: dentro do patriarcado, existem as lésbicas?

Para nós, feministas, a ausência de uma referência e de uma cultura lésbica está diretamente ligada à ausência de referências e culturas relacionadas às mulheres. Segundo Gerda Lerner, as mulheres sempre estiveram, bem como os homens, no centro da produção de cultura geral, ainda que não documentadas e historicizadas. Da época dos reis da Antiga Suméria até o passado mais recente, os historiadores eram homens que registravam o que os homens fizeram, vivenciaram e consideraram relevante. Por isso, tudo que mulheres criaram e viveram teria sido negligenciado, bem como a nossa interpretação sobre os fatos (Lerner em A criação do patriarcado, p. 28).

A feminista Robin Morgan em seu texto Sobre mulheres enquanto povo colonizado (1977) explica a analogia que constrói para falar sobre a alienação das nossas cultura e história, do nosso orgulho e das nossas raízes. Ela diz que os povos colonizados não só têm sua terra conquistada, mas também são coagidos a adotar a cultura do opressor. Ela nos lembra de todo o trabalho exercido exclusivamente por mulheres, como os domésticos e de cuidado em geral, sem nenhum benefício ou poder sobre o que produzimos, ou seja, consequências da nossa exploração; nos lembra do quanto somos levadas a odiar nossos corpos e a odiar nosso lugar no mundo por conta disso, e de como isso fortalece o patriarcado.

“Mulheres são um povo colonizado. Nossa história, valores e cultura supracultural foram tomados de nós — uma tentativa ginocida[5] manifesta mais impressionantemente na tomada patriarcal de nossa ‘terra’ básica e preciosa: nossos próprios corpos” (Morgan, 1977).

Essa analogia com a colonização que aborda nossos corpos enquanto terra colonizada demonstra o quanto o patriarcado é intrincado na vida das mulheres. Segundo Morgan, mais que nos forçar ativamente a abandonar uma cultura e adotar outra, como na maioria dos processos de colonização, ele nos imerge na cultura dos homens desde antes de nascermos, nos fazendo acreditar que essa é nossa própria cultura, que seria feita de nossas vontades e parte de nossa natureza. Não temos nenhum acesso a uma história das mulheres.

No entanto, de acordo com Lerner, esse apagamento dos livros de História não nos coloca em lugar de “vítimas” (p. 29). Fizemos história e estivemos presentes, provavelmente como maioria enquanto povo, em cada processo histórico — seja passando para a frente a cultura dos homens por meio da educação das crianças, já que estivemos impedidas de pensar, sistematizar e teorizar sobre a nossa própria situação no mundo; seja resistindo bravamente a cada ataque por meio de questionamentos, tensões e despertares críticos de cada uma de nós que se negou a aceitar o afastamento forçado entre nossa vida real e nossa própria interpretação da história. Nós temos sido impedidas de interpretar nossa própria condição e por isso mesmo produzimos resistência.

Cultura da mulher é a base que sustenta a resistência das mulheres à dominação patriarcal e a afirmação de sua própria criatividade ao moldar a sociedade. A expressão sugere uma afirmação de igualdade e uma consciência de irmandade. A cultura da mulher traduz-se com frequência na redefinição de objetivos e estratégias de movimentos de massa em termos que as mulheres considerem adequados” (Lerner, p. 293).

O que Lerner chama de cultura da mulher difere do que o patriarcado nos vende como nosso por meio do processo de socialização, ou seja, dos condicionamentos sociais pelos quais passamos desde que nascemos. As características de vestimenta e personalidade tipicamente associadas ao “universo feminino” — complacência, docilidade, abnegação, maternagem — são o que nós, do movimento pela libertação das mulheres, chamamos de feminilidade[6], uma construção social. Nada disso é parte de nossa natureza.

A feminilidade mascara a opressão à qual estamos submetidas, reafirmando aspectos da nossa submissão enquanto naturalmente femininos. Ao falar em cultura da mulher, porém, Lerner menciona a criatividade, que nós também consideramos ser um dos motores para alavancar consciências críticas a caminho da transformação social; e a capacidade das mulheres de questionarem essas imposições apesar de estarem afogadas na cultura do opressor — a cultura dos homens — desde a barriga de suas mães.

Abandonar a cultura do opressor, para a mulher, é criar suas próprias perspectivas; é rejeitar a feminilidade em todas as suas particularidades, sem recair na masculinidade; é interpretar seu lugar no mundo a partir de um novo olhar, livre de lentes patriarcais, livre de lógicas de dominação e submissão — o que só é possível a partir do despertar crítico. A cultura da mulher genuína é aquela criada pela própria mulher e a seu serviço.

É também para o despertar de consciência que Robin Morgan aponta quando sugere ferramentas para um resgate da cultura das mulheres. Ela acredita que é na reivindicação da nossa própria carne, por meio da educação de si e das nossas irmãs, que está o primeiro passo para nossa libertação. Quando desmistificamos, desnaturalizamos e dessantificamos nosso próprio corpo, estamos destruindo os padrões do colonizador. É o corpo politizado que consegue desamarrar a si mesmo e auxiliar na quebra das amarras das outras mulheres.

“Por meio da educação nós desenvolvemos expectativas mais altas, e a partir daí nós nos movemos através da raiva e em direção ao ímpeto por autodeterminação, por gozar de poder sobre nossas próprias vidas, por reivindicar os produtos de nosso trabalho (nossa própria definição sexual e nossas próprias crianças) e, enfim, por transformar a qualidade da própria vida em sociedade, como um todo — em algo novo, com compaixão e verdadeiramente são” (Morgan, 1977).

O movimento que Lerner e Morgan chamam de resgate da cultura das mulheres é arrematado por Margarita Pisano, feminista lésbica chilena: ela fala da criação de um novo marco civilizatório, livre da lógica masculinista de mundo. Aqui a chave da “criatividade” é usada novamente. O resgate da cultura das mulheres, que é uma cultura de resistência, é a saída — ele só faz sentido dentro de um sistema em que tal resistência é necessária; e é a partir dessa resistência que se alavanca a criação de uma outra forma de pensar a sociedade.

As três feministas convergem na aposta no despertar crítico coletivo e na rejeição da feminilidade como caminho para a destruição do patriarcado. Quando estão reunidas, pensando e agindo coletivamente, o potencial criativo e questionador das mulheres volta a aparecer, bem como o fato de que mulheres, enquanto seres marginais à sociedade, estão em posição favorável à destruição da cultura dos homens. Ainda em A criação do patriarcado, Lerner colabora ainda mais quando afirma que, se o patriarcado se constituiu historicamente ancorado no trabalho forçado de mulheres, é também historicamente que o destruiremos: nos negando a perpetuar os papéis destinados a nós, nos organizando, nos articulando com outras mulheres a fim de construir resistência coletivizada.

“Nosso desejo não é ter acesso à cultura vigente assumindo suas dinâmicas de domínio. Nosso desejo é produzir uma mudança civilizatória, em que a colaboração, o trabalho conjunto sejam a dinâmica que prevaleça nas nossas formas de nos relacionarmos (outra ética).” (Pisano em A utopia feminista)

Considerando que lésbicas somos mulheres, enquanto fêmeas humanas que passaram pelo processo de socialização feminina, educadas para serem heterossexuais, seria ousado pensar que, se existe uma cultura das mulheres a ser resgatada, ou criada, também haveria uma cultura lésbica? Uma que fosse definida pela sobrevivência das mulheres que amam mulheres, análoga à cultura da mulher de Lerner? Se a feminilidade é o que nos vendem como universo feminino, o que nos vendem como universo das lésbicas?

“Uma lésbica que não reinventa o mundo é uma lésbica em processo de desaparecimento”, diria Nicole Brossard, romancista e poeta franco-canadense que ousou desafiar, ao longo de seus trabalhos, a linguagem masculina. Ela chama a atenção para o fato de que é a participação ativa no processo de revolucionar a sociedade que mantém vivas a nós e a nossas semelhantes — que a inércia nos fará desaparecer, inevitavelmente, no patriarcado.

Seguindo a mesma lógica, Pisano argumenta, em O triunfo da masculinidade:

“Ao nos sentirmos tão fora do sistema, caímos na nostalgia da legitimidade que nos perde e nos trai. Acabamos querendo estar no centro do mesmo poder, quando o desafio político passa justamente por não colaborar com o sistema nem nos funcionalizarmos para sustentá-lo. Por isso necessitamos de um espaço político a sós onde criar com independência, um lugar de experimentação e estudo onde não sigamos sendo queimadas em praças públicas. Não basta ser mulher, não basta ser feminista nem basta ser lésbica para esboçar a ideia de outra cultura, é preciso se situar fora e inspecionar até o último canto da masculinidade para poder desconstruí-la.”

O alerta que Pisano nos traz é para não deixarmos que o estar à margem nos iluda, pois ainda estamos inseridas no sistema patriarcal. É disso que falamos quando afirmamos que, por mais distantes que consigamos nos colocar da feminilidade, ainda assim, todas fomos heterossexualizadas no decorrer da nossa criação. Que não nos iludamos. Nossa preocupação enquanto feministas lésbicas está relacionada a toda tentativa de aproximação da masculinidade por meninas e mulheres que não se conformam com a feminilidade, ou seja, quando nós nos esforçamos para ocupar ou nos aproximar dos espaços reconhecidamente de poder masculino.

Essa é uma realidade que tem crescido de forma exponencial. O apagamento lésbico e a falta de referências que fujam do que se entende por feminino e masculino somados à socialização feminina — baseada em heterossexualidade compulsória e, por consequência, em aprovação masculina — são terreno fértil para uma identificação, em alguma medida, de lésbicas com a masculinidade.

Especialmente com a potencialização das redes sociais e inseridas em um contexto cada vez maior de vigilância, jovens lésbicas de todos os espaços, que crescem questionando os papéis sociais atribuídos a elas, são levadas a se aproximar do universo dos jovens do sexo masculino. E nem é preciso ter se descoberto lésbica para começar essa identificação: o processo é anterior. Meninas que desde muito novas se negam a serem tratadas diferentemente de como são tratados seus irmãos; ou as que se negam a “se comportar como meninas”; as que se negam a amamentar “de mentirinha” suas bonecas; as que insistem em jogar futebol ou praticar qualquer esporte; as que ousam pedir privacidade; as que se sentem inconformadas: todas somos e fomos julgadas como menos mulheres e, com isso, estimuladas a nos identificarmos com os meninos e, posteriormente, com os homens.

Afinal, são eles que experimentam algo que se assemelha ao que conhecemos como “liberdade”. Eles podem e são estimulados a praticar esportes; não são chantageados em troca de colaboração com os afazeres domésticos; não são forçados ao tedioso jogo de fingir ser donas de casa ou mães; podem usufruir de espaços com privacidade; podem levar namoradas para casa; podem ir e voltar tarde da rua sem medo de assédio; podem e são estimulados a sonhar com aventuras e com a superação de sua própria condição no mundo. Com essas duas possibilidades de existência colocadas, não resta muita fuga para as meninas “rebeldes” a não ser se associarem aos meninos; nem às mulheres “rebeldes” a não ser se associarem aos homens e a se identificarem com eles.

Quando nos damos conta, estamos em meio a uma roda de lésbicas em que algumas delas se sentem envergonhadas por nunca terem atingido o orgasmo, outras se vangloriam de terem “comido” muitas na noite anterior, reproduzindo o modelo de sociabilidade determinado pela instituição da heterossexualidade. É importante dizermos que a aproximação da masculinidade não é, em absoluto, sobre aparência: é sobre formas de comportamento — e pode acontecer com toda e qualquer lésbica. Em alguma medida, acontece com todas as mulheres que, em um dado momento, precisaram definir como se colocarão no mundo. Todas as opções se fundamentam nos modelos heterossexuais.

Vestimentas e acessórios são as partes dos papéis sociais de sexo menos pertinentes ao feminismo — ainda importantes, mas secundárias. Estamos falando de nossa personalidade como um todo e de como ela é danificada pela lógica patriarcal da hierarquia entre os sexos, fazendo com que a reprodução de padrões masculinistas em relações lésbicas seja muito comum. São mulheres movidas pela ausência de referências que somente uma cultura lésbica genuína poderia oferecer.

Quando não sabemos nos nomear, quando aceitamos o que o patriarcado nos diz sobre nós, quando somos carentes de referências e de identidade, quando nos faltam ferramentas para a autodefinição, fica mais fácil os outros nos dizerem quem somos e determinarem nosso lugar. Grande parte das nomenclaturas atribuídas às lésbicas e ao sexo lésbico foram ditadas por homens e, muitas vezes, expressam misoginia. “Maria-João”, “colocar aranha para brigar”, “mulher-macho”, “sapatão”, “fancha” e tantos outros termos que acabamos ressignificando para nossa própria sobrevivência foram importados de uma cultura que tenta diminuir o amor e a associação entre mulheres.

Com o passar do tempo, assimilações como os termos “ativa e passiva” foram incorporadas também à experiência da lesbianidade; os anéis de coquinho, os “cortes de cabelo lésbicos”; o estereótipo da lésbica que casa no segundo dia (“caminhão de mudança”) e outras coisas que não assimilamos, mas com que ainda somos obrigadas a lidar. Quais desses símbolos nos representam ou nos definem? Quais desses estereótipos nos conectam com nós mesmas e com as outras mulheres, com as mulheres que amamos?

Quando há uma tentativa de nos representar em filmes, clipes, séries, letras de músicas e principalmente na pornografia, há sempre o imaginário do casal lésbico de aparência feminilizada, aprazível ao olhar masculino, cuja dinâmica de relacionamento reproduz a heterossexual: há sempre a dominadora e a submissa. Quando lésbicas não feminilizadas aparecem, é ainda pior: são as abusivas, ciumentas. Somos romantizadas para cumprir o que o roteiro da vida real determina. Só podemos existir para agradar. Por isso, tentam nos empurrar os clichês patriarcais, e, muitas vezes, nós os compramos.

Somos lésbicas “ativas” e não admitimos o toque de outras mulheres. Somos lésbicas “passivas” e subestimamos nossa capacidade de tocar outra mulher e gerar prazer. Somos lésbicas “relativas” e acreditamos que sexo está dicotomizado em quem dá e quem come, quem faz e quem recebe, quem penetra e quem é penetrada, quem domina e quem se submete. Somos lésbicas que fingem orgasmos. Somos lésbicas que não conseguem dizer não. Somos lésbicas que estão tão enviesadas pelo que se entende por sexo que desconhecemos o clitóris e o autoprazer. Somos lésbicas que não sabem concretizar os próprios desejos, que predam, que são predadas, que aprendem a sentir prazer na dor. Somos lésbicas que machucam e que são machucadas, pois não sabemos direcionar amor e afeto a outras mulheres.

Somos lésbicas que pedem para serem chamadas no masculino. Somos lésbicas que reivindicam ser homens, extrapolando a identificação com a masculinidade, como contrapartida à ânsia de nos livrarmos de tudo que a feminilidade representa. Somos lésbicas que mutilam os próprios corpos saudáveis. Somos lésbicas que sentem alívio por se acreditarem finalmente livres da feminilidade numa sociedade que não nos dá paz — ainda que mutiladas, machucadas, hormonizadas.

Esse é o universo lésbico do patriarcado; e qual é o universo que queremos construir? Susan Hawthorne nos ensina que para entrar em uma real existência lésbica devemos começar imaginando um mundo só de lésbicas, com imagens nossas, livres das representações que nos fizeram assimilar.

“Optar por uma vida definida por uma decisão política — a que uma mulher comete ao viver uma paixão por outras mulheres — é uma decisão grave. Ela envolve imaginação, porque poucas de nós têm modelos de uma vida como essa. A imaginação direciona essa paixão que pode, por sua vez, se tornar uma paixão pela comunidade política, por uma existência criativa, por uma vida marcada pela marginalidade” (Hawthorne em A despolitização da cultura lésbica).

Para exercer essa imaginação, feministas lésbicas estão utilizando o separatismo, em seus vários níveis, como tática, desde a segunda onda feminista até os dias de hoje. São lésbicas que se reúnem apenas com mulheres para discutirem, juntas, como mudar o mundo; ou que abandonaram maridos e às vezes até os filhos para viver com outras mulheres; ou que cortaram todas as suas relações com homens, com seus pais, tios e irmãos, na tentativa de se livrar das assimilações involuntárias da cultura masculina — que resistem à heterossexualidade compulsória não só no âmbito sexual, mas se recusando a dedicar qualquer migalha de energia e afeto a qualquer homem.

É importante contarmos a história de todas essas lésbicas a nossas meninas e mulheres para que elas saibam que é possível viver sem a aprovação e a permissão masculinas. Meninas e mulheres precisam de espaços exclusivos de criatividade; precisam ser estimuladas a exercitar o autoconhecimento para que possam definir a si mesmas; precisam ter acesso a uma cultura lésbica real, que fale de amor entre mulheres com a paixão pela comunidade política que Hawthorne menciona — que ensine a não rivalizar com outras mulheres, a valorizar a saúde dos nossos relacionamentos, que ensine a possibilidade do autoprazer e a importância de conhecer o próprio corpo.

Meninas e mulheres precisam conhecer lésbicas, admirar lésbicas; e precisam saber, acima de tudo, que podem ser lésbicas.

Acreditamos que é papel de todas as feministas a educação antissexista com o objetivo de quebrar as amarras da feminilidade e da masculinidade. É nosso papel, como mulheres lésbicas e feministas, aproximar crianças e jovens de uma educação genuinamente questionadora, emancipadora, libertadora. Precisamos urgentemente estudar, nos organizar e agir a fim de destruir a heterossexualidade compulsória como instituição e linguagem. É nosso papel parar de estimular meninas e mulheres a se identificarem com homens ou com a feminilidade. O feminismo precisa ser a terceira via. A via da organização de maneira criativa, emancipadora e libertadora.


Por Fêmea Brava e Fúria Raiz. Originalmente publicado em março de 2021 na Revista Entendidas


Notas

[1] Para ler mais sobre Heterossexualidade Compulsória: Rich, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/11nCC5JkvX6mo5pW82XlEKOQ8r-LJP_GE/view. Acesso em: 17 mar. 2021.

[2] Para ler mais sobre Separatismo Lésbico: Lee, Anna. Por amor ao separatismo. Disponível em: https://medium.com/qg-feminista/por-amor-ao-separatismo-80cf1d574049. Acesso em: 17 mar. 2021.

[3] A palavra “heteronormatividade” foi uma escolha de Stephanie Borges, tradutora do livro Irmã Outsider (Autêntica, 2019). No texto original encontramos a palavra “heterosexism”, que, em português, poderia ser traduzida como “heterossexismo”, o que a própria Audre Lorde descreveria como “a crença na superioridade inerente a um padrão de amor, o que implicaria seu direito à dominação”. Ou seja, seria a manifestação cultural de discriminação contra sexualidades divergentes (lésbicas, bissexuais e gays). Feministas que evitamos o termo “heteronormatividade” o fazemos por acreditar que ele é insuficiente para descrever a instituição política da heterossexualidade compulsória.

[4] Para ler mais sobre a crítica de mulheres lésbicas ao movimento LGBT: Raiz, Fúria. Mulheres, abandonem o movimento LGBT. Disponível em: https://medium.com/qg-feminista/mulheres-abandonem-o-movimento-lgbt-c8fe1d4d98e9. Acesso em: 17 mar. 2021.

[5] A palavra “ginocida”, empregada por Morgan, faz referência ao termo “genocídio”, ou seja, o extermínio deliberado, parcial ou total de uma comunidade, um grupo étnico, racial ou religioso, nesse caso, relacionado especificamente às mulheres. Por isso o uso do prefixo grego “gino”, que significa “mulher”.

[6] Para ler mais sobre Feminilidade: Brava, Fêmea. A feminilidade como sujeição à masculinidade. Disponível em: https://medium.com/qg-feminista/a-feminilidade-como-sujeição-à-masculinidade-fb53adcf24a0. Acesso em: 17 mar. 2021.


Referências

Hawthorne, Susan. A despolitização da cultura lésbica.

Hadsby, Hannah. Nanette. Disponível na Netflix. Acesso em: 17 mar. 2021.

Lorde, Audre. Idade, raça, classe e sexo: as mulheres redefinem a diferença. In: Irmã Outsider. Tradução: Stephanie Borges. Disponível em: https://grupoautentica.com.br/download/extras/Irma-Outsider.pdf. Acesso em: 17 mar. 2021.

Lorde, Audre. Os usos do erótico: o erótico como poder. Tradução: Stephanie Borges. Disponível em: https://grupoautentica.com.br/download/extras/Irma-Outsider.pdf. Acesso em: 17 mar. 2021.

Frye, Marilyn. Você precisa ser lésbica para ser feminista?. Tradução: Selvática. Disponível em: https://medium.com/revista-entendidas/você-precisa-ser-lésbica-para-ser-feminista-2bfef87795b1. Acesso em: 17 mar. 2021.

Johnston, Jill. Lesbian nation: the feminist solution.

Lerner, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens.

Morgan, Robin. Sobre mulheres enquanto povo colonizado. Tradução: Furiosa. Disponível em: https://furiosabr.medium.com/sobre-mulheres-enquanto-povo-colonizado-54dc4530e7ed. Acesso em: 17 mar. 2021.

Pisano, Margarita. A utopia feminista.

Brossard, Nicole. Lettre Aérienne (La).

Pisano, Margarita. O triunfo da masculinidade. Disponível em: https://medium.com/qg-feminista/o-triunfo-da-masculinidade-4c6d5e08004b. Acesso em: 17 mar. 2021.

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