Sabemos que o patriarcado é um sistema estruturado para garantir o privilégio e a dominação dos homens sobre todas as coisas e que organiza-se baseado na exploração das mulheres, por causa da sua função reprodutiva. Sabemos que a misoginia (ódio pelas mulheres) é um valor básico incrustado nos homens desde a infância para que possam afastar-se emocionalmente de mulheres e cumprir seu papel social de desumanização, objetificação e exploração, mesmo que à base de violência. Sabemos que a socialização forma meninos e meninas para o exercício desses papeis sociais baseados no seu sexo (gênero) ensinando todos os códigos da masculinidade e da feminilidade que nos organizam em um grupo dominante (de machos) e um grupo subalterno (de fêmeas). Sabemos que o machismo é a expressão cultural desse sistema de coisas e que opera retroalimentando e reforçando todas essas mensagens de misoginia. Sabemos que no pacote da socialização feminina está a maternidade compulsória, onde mulheres são adestradas para exercer não só sua função reprodutiva como para encarregar-se de toda a esfera do cuidado existente na sociedade. 

É uma estrutura quase “perfeita”, mas ainda assim é preciso dispositivos que garantam que mulheres não percebam sua própria condição e principalmente não rebelem-se contra o lugar que lhes é destinado socialmente. É preciso garantir que mulheres naturalizem a relação abusiva que é estabelecida já de partida com todo e qualquer homem e entreguem-se voluntariamente para o exercício do seu papel de mãe, esposa, reprodutora e cuidadora. Que desejem esse lugar tão profundamente a ponto de defendê-lo como unhas e dentes. E para que isso esteja garantido é que existe a heterossexualidade, em uma sociedade patriarcal.

E aqui é preciso um parêntese importante. É vasta e contraditória a discussão sobre como se forma a nossa sexualidade, desejos e afetos. E sempre há muita polêmica ao considerar o quanto que da expressão dos nossos desejos há de biológico e o quanto há de condicionamento social, sobre o que seria “opção” e o que seria uma “tendência natural”, mas a fato é que a resposta sobre isso no fim não importa tanto. A origem do nosso sentir não faz tanta diferença simplesmente porque sob uma sociedade patriarcal a heterossexualidade é um regime político, compulsório, estabelecido de maneira absolutamente estratégica para garantir a soberania masculina

E esse regime político é especialmente importante hoje, como ferramenta de manutenção dos papeis sociais de sexo, já que, houve um tempo (não tão distante), em que a anuência da mulher sequer era considerada. As uniões quase sempre obedeciam a arranjos entre famílias, clãs, tribos, reinos, etc, seja por um acordo comercial ou um acordo de paz. Mulheres eram moedas de troca, sem nenhuma autonomia. Eram oficialmente fábricas de mão de obra ou de herdeiros, a depender de sua posição social. Portanto, a resposta do patriarcado a essa maior autonomia das mulheres para escolha dos seus arranjos afetivos foi o reforço na compulsoriedade da heterossexualidade para toda a sociedade.

E o que isso significa? Entendendo que “compulsório” significa “obrigatório”, quando falamos em heterossexualidade compulsória estamos afirmando que toda e qualquer pessoa nascida sob o patriarcado é heterossexualizada, é obrigada a desenvolver e manter relações heterossexuais, e qualquer tentativa desviante é severamente punida.

E essa obrigação acontece, em primeiro lugar, sendo a heterossexualidade o único modelo de organização relacional afetivo-sexual possível a que somos apresentados, desde a infância. Que conhecemos primariamente através da família nuclear (ainda que incompleta), passando pelo reforço das instituições e da nossa cultura. Somos bombardeados com imagens e mensagens de como nosso objetivo na vida é encontrar um par, e esse par é sempre deverá necessariamente alguém do sexo oposto. 

Meninas aprendem sobre como são incompletas, e sobre como somente estarão inteiras, e felizes, ao conquistar um homem. Sobre como é edificante a vida de formar um lar. Sobre como a função da mulher é dar herdeiros a um homem. Aprendem a amar um determinado modelo de comportamento masculino que é marcado por signos de virilidade e dominação. Aprendem que devem ser desejadas mais do que desejar. Que devem dar prazer a um homem (ou serão abandonadas). Que é um homem que pode “fazê-las gozar”. Aprendem que devem ser belas, recatadas, do lar. Que finalmente serão reconhecidas e validadas quando escolhidas por um homem. Aprendem que outras mulheres são rivais. Que qualquer desejo não-heterossexual é proibido e vergonhoso.

Meninos aprendem que devem fazer sexo com o maior número de mulheres possível. Qualquer manifestação de personalidade que possa remotamente ser associada a feminilidade é duramente repreendida. Têm o seu comportamento monitorado pelos seus pares o tempo inteiro para garantir mostras frequentes de virilidade. São incentivados a demonstrar desejo e hipersexualidade o tempo inteiro. Precisam agir como touros reprodutores da espécie.

Do outro lado, casais homossexuais (que sempre existiram), são sistematicamente ocultados, escondidos, dissolvidos em novas categorias, reconfigurados, para que nunca consigam disputar essa narrativa de ser também um modelo possível de vivência da sexualidade e da afetividade. Há uma violência sistemática no sentido de coibir, estigmatizar e punir indivíduos que resistem a heterossexualização. O casamento homo-afetivo, depois de muita luta, só passou a ser permitido em alguns países a partir de 2001. Hoje, dos 193 países que existem no mundo, apenas 29 reconhecem legalmente uniões homoafetivas. Em mais de 70 países a prática é considerada ilegal, podendo levar desde a prisão até a pena de morte. A heterossexualidade é literalmente obrigatória, sob o risco de perder a própria vida.

Como consequência, uma sociedade heterossexualizada como a nossa é extremamente falocentrada. O sexo só é considerado válido se for o penetrativo (pois é o sexo que fecunda). O orgasmo feminino não é importante ou levado em consideração porque ele não é relevante para a procriação. Homens são estimulados a serem hipermasculinizados e a fazerem sexo com o maior número de mulheres possível porque sua “missão” é fecundar a Terra. Já a sexualidade feminina é tremendamente controlada, vigiada, e punida porque ela deve estar sempre à disposição do macho para ser engravidada. 

Relacionamentos heterossexuais são romantizados, hipervalorizados e superprotegidos em sua abusividade. Mulheres perdem a criticidade e aprendem a amar e desejar modelos absolutamente abusivos e predatórios de homem. Vão para o relacionamento como quem vai para o abate, e pouco importa o que aconteça, se há violência, se há desamor, é o homem quem, invariavelmente, dá as cartas e mulheres quase sempre estão sozinhas nas suas tentativas de escapar. 

A vivência da sexualidade de toda a sociedade, de uma maneira geral, acaba se dando de maneira confusa e incompleta. Recheada de medos, tabus e estigmas. Todos crescemos em profundo sofrimento psíquico, seja por desejos reprimidos ou incompreendidos. O patriarcado sequestra nossa sexualidade para garantir a manutenção do poder masculino, mas o preço é pago por todos. E entendendo a complexidade da dominação patriarcal sobre nossos destinos, fica a questão: será que em uma sociedade livre não nos daríamos permissão de amar indiscriminadamente homens e mulheres? Quem seríamos nós em um mundo em que fôssemos desobrigadas de reproduzir a espécie? Como seria um mundo em que pudessemos realmente escolher a quem amar e desejar?


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